Eu estava no Rio Sul com as minhas amigas, já com sacola demais e sem lembrar o que tinha ido comprar, quando o celular tocou. Era uma amiga do Maranhão. Ela nem me deu bom dia. Foi logo contando que um prefeito do interior tinha subido no palco com as duas esposas, e que uma delas, a deputada estadual mais jovem do Brasil, tinha agradecido à outra no microfone. Eu errei o passo e quase fui ao chão no meio do corredor. Gente.
Fui conferir. É verdade. O prefeito é Joedson Almeida dos Santos, o Júnior Garimpeiro (PSDB), de Centro Novo do Maranhão, cidade de 16 mil habitantes na divisa com o Pará. Na quinta (29), na festa dos 32 anos do município, ele apareceu abraçado às duas mulheres diante do público. Uma é Natali Lima, a primeira-dama, mãe das duas filhas dele. A outra é Natália Silva Melo, eleita deputada estadual pelo União Brasil com 32.486 votos e com um nome de urna que dispensa explicação: Natália do Júnior Garimpeiro.
No discurso, Natália agradeceu “ao meu esposo prefeito Júnior Garimpeiro”. Logo depois, agradeceu à “nossa primeira-dama”. A corrente que está rodando no WhatsApp fala em convivência harmoniosa. Pode até ser. Mas o jornalista maranhense que conseguiu o vídeo descreveu a cara de Natali durante o discurso como “de poucos amigos”. E tem mais um detalhe: à Justiça Eleitoral, quem se declarou casada foi Natália, a segunda. A ficha não diz com quem.
Segredo, isso nunca foi. Em fevereiro, num ato político, o próprio prefeito se comparou ao prefeito da cidade vizinha, Maracaçumé, conhecido como Tio Gal, e disse que levava vantagem. Ele tinha duas mulheres. O outro, só uma.
Agora vem a parte que a corrente não conta. Na manhã da festa, o juiz da 1ª Vara de Maracaçumé, a pedido do Ministério Público, proibiu dinheiro, carro, máquina e servidor da prefeitura no show de Natanzinho Lima, estimado em R$ 600 mil. A festa só poderia acontecer com dinheiro privado, sob pena de multa de R$ 50 mil por dia, cobrada do prefeito pessoalmente. O Ministério Público também apontou que a divulgação misturava a marca da prefeitura com a marca privada Grupo JG e com a comemoração da vitória da esposa. O show aconteceu. O prefeito disse que pagaria do próprio bolso. Peraí. Em 2024, ele declarou R$ 1,237 milhão em bens. Uma noite de Natanzinho seria quase metade disso. Na mesma cidade, só 27,5% da população tem acesso à rede de água.
E o calendário não ajudou. Três dias antes da festa, saiu a notícia de que a Justiça Federal tinha condenado o prefeito por danos ambientais na extração irregular de ouro num assentamento da reforma agrária, onde perícias encontraram uso de cianeto. Ainda cabe recurso. Ele já tinha sido preso duas vezes durante o mandato: em 2021, depois de quase duas semanas foragido, e em 2025, em Mato Grosso, com sacos de minério com traços de ouro. Nas duas vezes, a defesa negou irregularidades.
Sobre a deputada, a corrente também está atrasada. Natália fez 22 anos no último dia 18. Declarou R$ 186 mil em bens, dos quais R$ 100 mil são cotas de uma empresa de peças para veículos aberta em maio de 2022, quando ela tinha 17 anos. Na campanha, ganhou até vídeo de José Sarney chamando ela de “nossa candidata”. E um grande jornal nacional chegou a publicar que ela foi eleita com o apoio do pai, o prefeito de Centro Novo. O pai. O pai de verdade é um professor chamado Nonato Melo.
Fica assim: uma esposa continua primeira-dama, a outra assume a Assembleia em 2027 com o nome do marido no nome de urna, e o marido comemorou a vitória por cima de uma ordem judicial. Voltei para as compras. Até agora não lembro o que eu tinha ido buscar.