Eu estava na maca, no meio de uma drenagem, naquele estágio em que a pessoa não consegue nem virar o pescoço direito, quando a terapeuta parou tudo e enfiou o celular na minha frente. “Kátia, você precisa ver isso.” Vi. E fiquei ali, imobilizada, de perna erguida, assistindo a um prefeito de capital explicar em entrevista coletiva por que a cidade dele não teria campeonato de farmar aura. A sessão atrasou vinte minutos e eu não reclamei.
O caso é o seguinte. Na quinta-feira, Abilio Brunini anunciou que a Prefeitura de Cuiabá não autorizaria o 1º Campeonato de Farmar Aura, previsto para esta sexta-feira no Parque das Águas. Perguntado sobre o que significa a expressão, respondeu que não tinha ideia e emendou que é hétero. Também disse acreditar que quem participa dessa brincadeira vai sentir muita vergonha no futuro, alegou falta de interesse público e afirmou que o espaço deve servir para edificar a família, não para coisas que, nas palavras dele, diminuem a imagem do ser humano. E acrescentou o argumento administrativo, que é o mais sólido de todos: os organizadores não pediram alvará nem apresentaram responsável técnico, exigências legais para evento em área pública.

Vale explicar o tamanho da ameaça à ordem urbana. O campeonato seria disputado um contra um, cada participante com um minuto para impressionar os jurados com dança, acrobacia, mortal ou qualquer coisa que arrancasse reação da plateia, com música escolhida pelo próprio competidor. A única regra proibitiva era não interferir fisicamente na apresentação do adversário. Prêmios: cem reais para o primeiro lugar, cinquenta para o segundo e um baguncinha, o lanche tradicional cuiabano, para o terceiro. Farmar aura, para quem chegou agora, nasceu do verbo “farm” dos videogames, de acumular recursos em partidas de League of Legends e Minecraft, e virou gíria da Geração Z para acumular carisma, presença, admiração alheia. Nada ali envolvia sexualidade de ninguém.
Agora a movimentação digital, que é onde a coisa fica boa. O prefeito lançou a proibição primeiro nas redes, gravou vídeo dizendo que existiam 67 motivos para negar a atividade, entre eles saúde mental coletiva e bem-estar social, e ainda foi comentar em publicação de portal local para reforçar que não ia acontecer. Horas depois, a Prefeitura de Cuiabá publicou campanha convidando os jovens a procurar emprego, usando a própria gíria como isca. Nesta sexta, o tom mudou: reunião espontânea no parque está liberada, campeonato profissional sem licença é que gera multa. Enquanto isso, o influenciador que convocou tudo simplesmente mudou o endereço para o Parque Tia Nair, às 16h, e seguiu com a programação.
O que me fascina é a economia da coisa. Bastava a frase sobre alvará e responsável técnico, que é irrefutável, e o assunto morria em uma linha de nota oficial. Ao acrescentar sexualidade, vergonha futura e diminuição da imagem do ser humano, o prefeito transformou uma pendência de secretaria de ordem pública em manchete nacional e entregou de graça a maior divulgação que aquele campeonato poderia sonhar. Um evento de cem reais de premiação virou assunto do país inteiro. Não sei quem ganhou a disputa no Parque Tia Nair, mas sei exatamente quem farmou mais aura essa semana, e ele nem sabia o que a expressão significava.