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Kátia Flávia
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“Preciso de uma matéria muito boa”: mensagens de Vorcaro expõem pressão sobre cobertura do Master na Globo

Prints divulgados por Antonio Tabet mostram o ex-banqueiro avaliando reportagens e pedindo “gordura de mídia”

Kátia Flávia

15/10/2026 9h09

Daniel Vorcaro aparece em mensagens sobre a cobertura jornalística do Banco Master

Daniel Vorcaro aparece em mensagens sobre a cobertura jornalística do Banco Master

Prints atribuídos a Daniel Vorcaro e a Frederic Kachar, CEO da Editora Globo, mostram o então controlador do Banco Master discutindo reportagens sobre sua empresa e afirmando que precisava de “uma matéria muito boa pra criar gordura de mídia”.

Eu já tinha deixado o Chiado e subia em direção ao Príncipe Real quando parei no meio do caminho para ler aquilo com calma. Porque uma coisa é fonte reclamar de reportagem; outra é aparecer em conversa analisando cobertura, esperando reação e falando de “gordura de mídia” como se jornalismo fosse suplemento para fortalecer balanço.

Em uma troca datada de setembro de 2024, o contato identificado como “Fred Kachar Globo” encaminha a Vorcaro uma matéria do Valor Econômico sobre o Master e pergunta: “Não vai falar nada rs?”. A reportagem tratava dos resultados do banco, de aportes e da perspectiva de novos sócios.

Vorcaro responde que os jornalistas tinham feito “bom trabalho”, mas diz que a matéria não havia sido boa para o banco. “Sigo precisando uma matéria muito boa pra criar gordura de mídia. Acho que será apenas quando fizer aquele movimento externo”, registra a mensagem atribuída ao ex-banqueiro.

Eu atravessei a praça, olhando para aquele vai-e-vem elegante do Príncipe Real, e fiquei com uma pergunta atravessada: desde quando empresário deveria discutir com executivo de grupo de comunicação o tipo de matéria que ajuda ou atrapalha a imagem de sua empresa? O problema não é gostar de notícia favorável; é tratar cobertura jornalística como ativo a ser negociado.

No material divulgado, Kachar rebate a avaliação e afirma que a reportagem apresentou “os dois lados”. “Não dá pra fazer matéria sem olhar pra todos os fatos”, diz a mensagem atribuída a ele, que classifica a chamada como “super positiva”. O trecho não comprova alteração de conteúdo nem venda de reportagem, mas mostra uma interlocução incomum sobre a avaliação editorial feita por Vorcaro.

Em outra conversa, o banqueiro reclama de uma coluna de Malu Gaspar sobre gestores do Master investigados por supostas operações fraudulentas e manipulação de preços. O contato identificado como Kachar responde que tentava falar com a jornalista e, depois, escreve: “Vou falar com ela”. Os prints não demonstram que a conversa tenha resultado em interferência na coluna.

Quando entrei na Embaixada, no Palácio Ribeiro da Cunha, eu pensei que aquele casarão cheio de salas e portas escondidas tinha virado a imagem perfeita do caso: os prints abrem uma fresta, mas ainda não permitem afirmar tudo o que existe por trás dela. É por isso que a cautela importa tanto quanto a cobrança por explicações.

Até agora, o que há de público são mensagens atribuídas aos envolvidos, divulgadas por terceiros, e perguntas legítimas sobre a proximidade entre um banqueiro e um executivo responsável por veículos jornalísticos. Se os diálogos forem confirmados, a conversa sobre limites, independência editorial e transparência terá de ser muito maior do que uma troca de WhatsApp.

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