Vamos ao que interessa. No Caldeirão de sábado, dia 25, o quadro Tem ou Não Tem fez uma pergunta digna de mesa de bar depois da segunda garrafa: se o seu parceiro deixasse você trair só uma vez, com qual apresentador de TV você usaria essa carta? Cem pessoas responderam à pesquisa da Globo. E o vencedor foi Celso Portiolli, com 37 menções. Contratado do SBT. Repito, para o caso de alguém ter engasgado com o café: a Globo perguntou, e a resposta veio de outro canal.
O ranking completo é uma aula de sociologia doméstica. Portiolli com 37, Marcos Mion com 19, César Tralli com 18, Luciano Huck com 9, William Bonner com 8 e Tadeu Schmidt com 4. Ou seja, o apresentador do Domingo Legal fez quase o dobro do segundo colocado e mais que a soma de Huck, Bonner e Tadeu juntos. Rodrigo Faro e Pedro Bial também foram citados pelas entrevistadas, mas não chegaram ao quadro de respostas. Guardem esse detalhe, porque ele diz muito sobre quem escolhe o que aparece na tela.
Agora o bastidor do estúdio, que é onde a coisa fica boa. Quem entregou o nome do Portiolli foi o ator Pedro Alves, do elenco de Quem Ama Cuida, e a plateia reagiu na hora. Mion registrou o que viu ao vivo, disse que a mulherada ficou de pé, de todas as idades, e admitiu nunca ter presenciado aquilo, chamando Lúcio Mauro Filho de testemunha. Reparem no que isso significa em linguagem de auditório: não foi risada de constrangimento, foi aplauso coletivo e espontâneo, o tipo de reação que nenhum diretor consegue produzir com placa de aplauso. Depois Mion emendou a piada juntando o nome do quadro dele ao quadro clássico do domingo do SBT, o que foi, tecnicamente, a segunda vez em cinco minutos que a Globo entregou publicidade gratuita para a concorrência.
E aqui entra minha parte preferida, a leitura de comportamento. Preste atenção no perfil dos seis nomes. Todos maridos consolidados, todos com casamento longo, todos vendidos ao público como homem de família. Não apareceu solteiro na lista, não apareceu galã de novela, não apareceu ninguém com fama de vida noturna. A plateia feminina, quando recebeu autorização hipotética para escolher, escolheu justamente o arquétipo do homem estável. Isso não é desejo por perigo, é desejo por gentileza. E ninguém no país trabalhou mais essa imagem, com mais constância e mais anos de repetição, do que Portiolli, que faz televisão de família há décadas e construiu uma persona de sujeito acessível, cordial, que abraça a plateia. O prêmio dele veio exatamente do personagem que ele passou a carreira montando. Não caiu do céu, foi construído em plena tarde de domingo.
E tem a ironia biográfica, que eu não poderia deixar passar. Portiolli é casado desde 1999 com a designer de interiores Suzana Marchi, com quem tem três filhos, Laura, Pedro Henrique e Luana. Mion, o apresentador que conduziu a brincadeira e ficou em segundo lugar na própria pesquisa que fez, também é casado com uma Suzana. Duas Suzanas, um quadro sobre traição autorizada, e as duas assistindo em casa. Se existe grupo de WhatsApp entre elas, ontem foi noite de mensagem longa.
Moral da história, meus amores: o SBT levou o prêmio de sedução sem gastar um centavo em produção, sem ceder imagem e sem sequer saber que estava concorrendo. Portiolli continua na dele, apresentando programa de auditório, casado, pai de três, alheio ao alvoroço. É o único homem do Brasil que virou fantasia nacional trabalhando de manga comprida e falando com criança.