Mal tirei a primeira peça da mala, ainda com cheiro de Portugal na roupa, e o telefone tocou. Era uma amiga de dentro da Globo, dessas que sabem de tudo antes de todo mundo, com os resumos de Roque Santeiro na ponta da língua. Larguei o cachecol em cima do Otávio e sentei no chão da sala, morta com farofa e feliz da vida.
Porque vocês sabem: eu sou a Viúva Porcina. Quem me conhece há mais de cinco minutos sabe. E a partir de agora, de volta ao Cosme Velho, não perco um capítulo nem que o prédio pegue fogo.
O que vem aí é um banquete. No sábado, Porcina liga para Roberto Mathias, o ator que chegou a Asa Branca para filmar a história de Roque. Enquanto isso, Roberto e Tânia quase se beijam, e Tânia, para quem esqueceu, é filha do Sinhozinho Malta. Lulu conhece Padre Albano e corre para se confessar. E Porcina, que não aceita esperar ninguém, vai pessoalmente até a pousada atrás do moço.
Na segunda, 26, o caldo entorna. Gerson pede que Roberto se aproxime da viúva só para mantê-la longe das filmagens. Porcina manda um jagunço buscar o ator, ele diz que não pode ir, e Malta aparece ameaçando Roberto. Ela volta sozinha da fazenda, vai assistir a uma gravação dele e é surpreendida por Malta. No fim, os capangas de Porcina sequestram Roberto Mathias. Gente, isso é amor ou mandado de busca?
Quem viveu 1985 lembra o que foi esse país parado na frente da TV. Regina Duarte como Porcina, Lima Duarte como Sinhozinho Malta, Fábio Jr. como Roberto Mathias, e uma novela que tinha sido proibida pela censura dez anos antes e voltou para virar febre. Rever isso hoje é aula de como se escreve personagem.
Meu julgamento já está pronto. Porcina brilha porque faz tudo o que eu sempre quis fazer e a educação não deixou: quer, liga, vai buscar. Malta, coitado, perde a pose a cada cena, ameaçando ator como quem ameaça vizinho que estacionou na vaga dele. E Roberto, entre a filha do Malta e a mulher do Malta, escolheu o pior hotel para se hospedar na vida.
Minha previsão: esse sequestro vai render a cena mais deliciosa da semana, e Porcina vai sair por cima, como sempre sai. Malta que se prepare para engolir em seco. Eu vou estar no sofá, de cafezinho coado, batendo palma sozinha para a minha viúva.