A convocação de Neymar por Carlo Ancelotti abriu uma nova crise entre jornalistas esportivos às vésperas da Copa do Mundo. Tiago Leifert, Thiago Asmar, André Rizek, Neto, José Trajano e Juca Kfouri entraram em uma troca de críticas públicas que levou o debate sobre a Seleção para o campo das vaidades profissionais.
Eu já estava no Iguatemi, em São Paulo, tentando passar de uma reunião para outra sem derrubar café no blazer, quando o celular começou a vibrar com essa guerra santa do jornalismo esportivo. Era Leifert cutucando, Pilhado devolvendo, Rizek espumando, Neto ponderando, Trajano entrando de voadora e Juca Kfouri sendo puxado para o centro do gramado. Minha filha, eu sentei perto da escada rolante porque aquilo não era cobertura de Copa. Era “Casos de Família” com credencial de imprensa e chuteira pendurada no cenário.

O primeiro capítulo veio depois da coletiva de Carlo Ancelotti. Thiago Asmar, o Pilhado, criticou colegas de imprensa ao comentar a convocação de Neymar. “Eu vejo muita gente da imprensa que não joga futebol, nunca jogou futebol profissional, questionando a convocação do Neymar.”
Pouco depois, André Rizek, do SporTV, publicou uma indireta contra o ex-Globo. “Jornalista, digo, suposto jornalista se filmar fazendo pergunta e depois postar ‘como a pergunta foi foda, lacrei, mandei meu recado’ é uma das muitas provas de como tanta gente desqualificada supostamente vem exercendo a profissão”, afirmou. “A única coisa que importa é a notícia, mas os caras realmente se acham mais importantes que ela, razão de ser do jornalismo, mais relevantes que o próprio entrevistado. Que merda.”
Pilhado respondeu em tom de ironia: “Olha quem apareceu revoltadinho com a minha pergunta”, escreveu. Em seguida, acusou parte da imprensa de manipulação e perseguição a Neymar. “Você diz que o que importa é a notícia, mas o problema é que quem dá a notícia é uma imprensa manipuladora, covarde e desqualificada, já que você gosta de usar esse termo, da qual você faz parte. Uma imprensa politizada e sem vergonha na cara, que persegue descaradamente um ídolo mundial pela forma como ele pensa a política.”
No meio do incêndio, Tiago Leifert também entrou no assunto. Em seu canal na internet, o integrante da equipe esportiva do SBT questionou jornalistas que cravaram que Neymar não seria convocado para a Copa: “Mas ficou tão feio para tanta gente que, se fosse um lugar sério, se o jornalismo esportivo estivesse vivendo uma fase melhor, era papo de demissão, né?”, disse Leifert. “Porque a galera perdeu a mão do debate e eles erraram muito feio. Eles tinham tanta certeza… ‘Eu tenho certeza que nem passa na cabeça do Ancelotti’. Falaram tanta b… nos últimos tempos… Foram poucas as vozes sensatas.”
Neto, apresentador de “Os Donos da Bola”, na Band, rebateu a fala. “O que a gente não quer é que as pessoas sejam mandadas embora porque deu uma opinião sobre qualquer tipo de convocação. Quando a gente pede para mandar embora as pessoas eu acho muito desleal. Eu não acho isso legal. Isso não é bom pra ninguém.”

José Trajano, ex-ESPN e atualmente no “Trio de Ataque”, da TV Brasil, foi mais duro contra Leifert. Chamou o apresentador de “sapatênis arrogante” e “arauto do entretenimento esportivo”. “Atitude típica de um censor que não sabe conviver com quem pensa diferente. Representante-mor do jornalismo esportivo sapatênis, deveria se envergonhar e pedir desculpas aos colegas que batalham com dignidade e suor para manter os empregos e assim tocar a vida deles e de suas famílias”, afirmou Trajano.
Leifert, depois, reforçou a crítica a quem errou sobre a convocação de Neymar e mirou Juca Kfouri. “Tem um lá no UOL que disse que a Virginia não consegue concatenar duas frases. Com mulher, é muito machão, né? Com mulher, é muito, muito machão. Já teve problema de machismo outro dia e os coleguinhas, shhhhh!”
Eu saí da reunião já procurando almoço e com a certeza de que a Copa nem começou, mas a mesa de comentaristas já entrou em acréscimos. O Brasil ainda quer saber se Neymar aguenta, se Ancelotti encaixa o time e se o Hexa vem. Enquanto isso, os jornalistas resolveram disputar quem grita mais alto antes do apito inicial. Se continuar assim, a FIFA vai ter que abrir uma categoria nova: melhor ataque entre colegas de profissão.