Estava na academia do Leblon esta manhã, quarenta minutos de treino cumpridos e mais vinte pela frente, quando a TV pendurada na parede mostrou o Bom Dia São Paulo e a Sabina Simonato com aquele olhar que a gente reconhece de longe: o olhar de quem vai falar alguma coisa que dói de verdade. Larguei o peso no chão, olhei para a tela e fiquei parada. O Dato foi embora, e essa frase ainda não cabe direito na cabeça de ninguém que conheceu a história desse homem.
Odailton de Oliveira Silva tinha 77 anos e estava estacionando o carro em frente a um açougue na avenida do Rio Pequeno, zona oeste da capital paulista, na tarde de terça-feira (19), quando um motociclista armado o abordou. O suspeito anunciou o assalto e atirou na cabeça do piloto praticamente à queima-roupa. Dato perdeu o controle do veículo, bateu em um ônibus parado à frente, foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros ao Hospital Universitário e não resistiu. O caso foi registrado no 51º Distrito Policial, no Butantã, e o criminoso segue solto.
Para quem acompanhou décadas de jornalismo televisivo no Brasil, o nome Dato de Oliveira é referência imediata: ele comandou o Globocop, o helicóptero que a Globo usou em incontáveis coberturas ao vivo, e tinha uma história de vida que valia livro, literalmente. Havia lançado há pouco tempo a autobiografia “Voar é a Segunda Melhor Coisa do Mundo”, onde dividiu memórias e bastidores de uma carreira construída no ar. Em 2010, quando ainda atuava na Record, foi o primeiro a chegar ao local da queda do helicóptero da emissora no Jockey Club de São Paulo, ajudando no socorro às vítimas.
Esta manhã, no Bom Dia São Paulo, a Sabina Simonato não disfarçou a comoção. Ao vivo, ela descreveu Dato como uma pessoa sempre disposta, alegre e amigável, e disse que ele foi embora pela violência, com um tiro na cabeça, praticamente à queima-roupa. Completou dizendo que a perda não era só da família, era de todo mundo próximo a ele. A apresentadora falou o que muita gente estava sentindo naquele momento, sem eufemismo, sem protocolo de telejornal, com a voz de quem sabe exatamente o peso do que está dizendo. Concordo com cada palavra, Sabina.
O Brasil tem um problema que não resolve e não enfrenta como deveria, e esse problema mata gente boa, gente com história, gente que construiu coisas bonitas. Setenta e sete anos, uma carreira inteira dedicada ao jornalismo aéreo, um livro acabado de lançar, e alguém achou que a vida dele valia menos do que o que tinha no bolso. Esta coluna encerra o treino de hoje sem o menor ânimo de continuar: que a família de Dato encontre algum conforto, que as autoridades encontrem o criminoso, e que o país um dia se canse de normalizar esse horror.