Eu estava lá na drenagem linfática, com a terapeuta empurrando tudo pra cima como se fosse possível reverter os anos de feijoada, quando o celular vibrou três vezes seguidas. Não era o Uber. Era a história do João Fernandes voltando a circular com uma força danada no Google, empurrada pela reprise de Avenida Brasil no Vale a Pena Ver de Novo. Pedi um café com leite, pausei a drenagem e fui ler tudo.
João Fernandes tinha 14 anos quando virou o Picolé, aquele menino do lixão que grudou no coração do Brasil em 2012. Cresceu, continuou atuando, se apaixonou pela atriz Mabel Calzolari, tiveram o Nicolas em 2019, e aí veio o baque: em 2021, Mabel morreu de aracnoidite, uma doença rara e devastadora, e João ficou sozinho com o filho de menos de dois anos no colo. Viúvo aos 21. Pai solo. Sem manual.
Hoje com 27 anos, o menino do lixão está em três lugares ao mesmo tempo: na reprise da novela que o fez famoso, na novela das seis A Nobreza do Amor, onde vive o personagem Fuad, e nos palcos do Rio em O Talentoso Ripley. E ainda pega o Nicolas na escola, faz lição, dá banho, coloca pra dormir. Em entrevista recente, ele falou com uma calma que eu confesso que não teria: “Me viro nos 30. A maior dificuldade é a responsabilidade que se aloca nas costas o tempo todo.”
As redes explodiram quando a história voltou a circular. Gente que nem sabia que o Picolé havia crescido, casado, perdido a esposa e seguido em frente, tudo isso antes dos 25. Os comentários foram de um lado só: respeito, admiração, aquela comoção coletiva que o brasileiro tem quando a dor é real e a pessoa não faz performance de vitimismo.
Eu terminei a drenagem, paguei, dei gorjeta e fui pensando no caminho pro salão: tem gente que aparece na TV com a vida toda arrumadinha e faz barraco por causa de contrato. E tem o João Fernandes, que perdeu a mãe do filho, colocou o menino nas costas e foi trabalhar. Sem textão. Sem pausa dramática. Só foi.