Uma ida ao supermercado em Santa Catarina terminou em caso de polícia depois que um cliente pediu picanha no açougue e recebeu mortadela de um funcionário bolsonarista ao dizer que havia votado em Lula. A provocação gerou discussão, gritos, empurra-empurra e intervenção da Polícia Militar.
Eu já tinha raspado a última folha de rúcula da quentinha do Celeiro e estava procurando um chiclete de hortelã na bolsa quando o vídeo começou a rodar no grupo. Parei com a nécessaire aberta, guardanapo no colo e a alma saindo do corpo. O Brasil conseguiu transformar balcão de carne em urna eletrônica com cheiro de mortadela.

Segundo relatos sobre o vídeo que voltou a circular nas redes, o cliente chegou ao setor de açougue e pediu uma peça de picanha. Antes de entregar o corte, o funcionário teria perguntado em quem ele votou. Ao ouvir que o homem havia votado em Lula, respondeu com uma peça de mortadela no lugar da carne.
Pronto. Estava servido o prato principal do país: provocação política com acompanhamento de gritaria. O cliente se sentiu humilhado, começou a discutir com funcionários e o clima saiu do controle dentro do supermercado.
Imagens gravadas no local mostram o homem alterado, discutindo no setor de carnes, enquanto outras pessoas tentam contê-lo e afastar uma criança da confusão. Houve xingamentos, empurra-empurra e correria de gente que tinha saído para comprar mistura e acabou no meio de uma guerra fria de açougue.
A gerência chamou a Polícia Militar. Após ouvir os envolvidos, os policiais levaram o açougueiro algemado para a delegacia, e o cliente também foi encaminhado para prestar esclarecimentos. O caso foi registrado como injúria e perturbação. Não houve feridos.
E aqui, sinceramente, é impossível não dizer: o Brasil precisa de terapia coletiva urgente. A pessoa pede picanha, o outro entrega mortadela como lacração de balcão, alguém grita, alguém filma, a polícia chega e a carne fica esquecida. Nem o churrasco começou e todo mundo já estava passado do ponto.
A piada, claro, vem carregada de símbolo político. A picanha virou promessa, a mortadela virou provocação e o supermercado virou palco de uma eleição que aparentemente nunca acaba. Só faltou urna eletrônica ao lado da balança.
Achei o chiclete, fechei a bolsa e precisei respirar. Porque se até pedir carne virou teste ideológico, daqui a pouco o caixa pergunta posição política antes de liberar o CPF na nota. “Débito, crédito ou segundo turno?”

O episódio aconteceu em junho e voltou a viralizar agora justamente porque parece escrito por alguém que exagerou no roteiro. Mas não. Foi vida real, com açougueiro, cliente, Polícia Militar e um país incapaz de comprar picanha em paz.
No fim, a mortadela voltou para a geladeira, a picanha ficou no balcão e o caso foi parar na polícia. Kátia enlouqueceu? Claro. Porque quando a política entra no açougue, meu amor, ninguém sai só com carne. Sai com boletim de ocorrência.