Eu estava saindo de uma sessão de drenagem na Barra quando vi o desabafo de Paula Lavigne. Parei na porta. Passada. Celular numa mão, bolsa na outra e a drenagem recém feita sendo desperdiçada pelo estresse. Desde então estou tentando ligar para Paula. Até agora, nada. Paula, minha filha, atende essa colunista porque você resolveu abrir a planilha mais barulhenta da cultura brasileira.
A produtora, presidente da associação Procure Saber e mulher de Caetano Veloso, fez um pedido direto ao presidente Lula: quer que o governo enfrente as bets no Brasil e, se não conseguir impedir sua presença no país, que pelo menos não permita que essas empresas usem a Lei Rouanet.

E foi aí que eu fiquei mais passada ainda. Paula falou de dinheiro. Segundo ela, produtores ouvem que existe muita oferta de patrocínio, mas a realidade dos espetáculos não estaria acompanhando essa fartura. Ela afirmou que promove shows há 40 anos e que nunca viu uma situação semelhante, com plateias vazias. Também criticou o uso de emendas com artistas sertanejos.
Depois, Paula colocou os grandões no meio da roda. Citou Caetano Veloso, Marisa Monte, Anitta e Emicida para argumentar que artistas desse tamanho têm poder para chegar diante de um patrocínio de bet e recusar. O pequeno, segundo ela, não desfruta da mesma liberdade. Precisa trabalhar, pagar produção, equipe, estrutura e fazer o espetáculo acontecer.
Aí entra a Lei Rouanet. Paula defendeu as exigências de prestação de contas do mecanismo, falou dos limites para cachês e pediu diretamente a Lula que, caso o governo não consiga impedir as bets no Brasil, não permita que essas empresas utilizem a lei.
Tem uma questão econômica importante escondida dentro desse barraco todo. Paula está discutindo quem consegue escolher de onde vem o dinheiro que financia um espetáculo. Uma estrela consolidada possui poder de negociação para recusar determinada marca. Um artista pequeno pode depender daquele patrocínio para colocar o show de pé.
Paula ainda fez uma crítica pesada a Michel Temer, responsabilizando seu governo por parte da deterioração que enxerga no setor cultural. É uma avaliação política dela. O que está objetivamente posto é o pedido feito a Lula e a discussão sobre a presença das empresas de apostas no financiamento da cultura.
E eu continuo aqui tentando falar com Paula. Porque você não solta uma bomba dessas enquanto eu estou saindo de uma drenagem na Barra e acha que esta fofoqueira vai simplesmente entrar no carro e seguir a vida. Paula, atende. A drenagem acabou, mas a pauta acabou de começar.