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Kátia Flávia
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Otávio Muller estreia no Porta dos Fundos satirizando crítico reacionário

O Porta dos Fundos lançou nesta sexta-feira, 13 de março, o programa “Crítica Semiaberta”, estrelado por Otávio Muller, no YouTube e nas redes da produtora. Na trama, o ator vive um político em prisão domiciliar que comenta clássicos do cinema com viés distorcido e transforma análise em autopromoção.

Kátia Flávia

13/03/2026 14h00

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Otávio Muller em “Crítica Semiaberta” | Crédito: Porta dos Fundos

Meus fofoqueiros de elite, eu precisei pausar a vida para saborear essa premissa com calma, porque o Porta dos Fundos resolveu pegar Otávio Muller, botar o homem no sofá, de tornozeleira cenográfica e alma de comentarista atravessado, e criar um programa que parece ter saído de um delírio muito bem direcionado sobre o Brasil. “Crítica Semiaberta” estreia nesta sexta-feira, 13 de março, com Otávio no papel de Mario, um político em prisão domiciliar que faz reviews de filmes clássicos enquanto mistura cinema, ressentimento e aquela mania nacional de opinar com convicção mesmo quando a lógica já pediu demissão faz tempo.

Eu adoro uma sátira que escolhe alvo com precisão cirúrgica e uma cara muito limpa. Aqui, o Porta dos Fundos mira no crítico opinativo e reacionário, essa figura que comenta cultura como quem faz discurso em grupo de família depois de duas taças e um surto cívico. O personagem de Otávio analisa filmes com leituras equivocadas e tendenciosas, sempre contaminadas pela própria vida, o que já me parece um retrato bastante reconhecível de certas almas públicas que transformam qualquer assunto em palanque, terapia mal resolvida ou campanha de recuperação de imagem.

No primeiro episódio, Mario comenta “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça, indicado ao Oscar. A escolha tem malícia, meu amor. Não é um filme qualquer jogado na roda para arrancar risada barata. O projeto encosta no cinema de prestígio, pega um título que circula com peso crítico e internacional, e usa isso como matéria-prima para satirizar o sujeito que se acha grande intérprete do país, mas na verdade está só se ouvindo falar. Eu tive que rir, confesso, porque essa criatura existe aos montes, muda o figurino, troca a rede social, ajeita a sobrancelha e segue por aí distribuindo sentença como se fosse oráculo de camarote.

A produção tem direção de Matheus Monk e será exibida semanalmente às sextas-feiras, às 11h, no canal oficial do Porta dos Fundos no YouTube e nas redes da produtora. Depois, também entra no PortaTV a partir de abril. Ou seja, não estamos diante de um esquete solto, desses que piscam no feed e evaporam. Há formato, calendário e tentativa clara de transformar a piada em produto recorrente, com um personagem central que pode render muito se o texto mantiver esse flerte saboroso com a caricatura política brasileira.

Tem ainda um detalhe de bastidor que eu acho importante, meus amores. A estreia acontece depois da participação de Otávio Muller em “Três Graças”, da TV Globo, em que interpretou Célio. Isso ajuda a entender o momento do ator, que passeia por registros muito distintos e agora cai nesse tipo de humor que exige cara séria para sustentar absurdo. E aí, sinceramente, ele tem estofo para isso. Otávio sabe fazer o homem comum, o deslocado, o sujeito amargo, o cínico de fala mansa. Botá-lo para viver esse comentarista deformado pelo próprio ego foi uma escolha de casting esperta, quase indecente de tão funcional.

O Porta dos Fundos, por sua vez, segue tentando provar que ainda sabe produzir humor com comentário social sem depender apenas da nostalgia do que já fez lá atrás. A produtora fala de comunidade com mais de 45 milhões de pessoas, distribuição internacional pelo Backdoor e expansão do PortaTV, lançado em setembro de 2025. Tudo muito bonito no release, claro, porque release adora perfume institucional, mas aqui existe uma ideia que realmente tem cara de série boa para render conversa, meme e aquela irritação específica de quem vai se reconhecer demais na piada e fingir que achou raso.

Meu bem, eu comecei lendo isso com prazer, terminei com fome de assistir e no meio do caminho quase derrubei o celular pensando no tanto de gente que vai se ver refletida nesse espelho torto com filtro de alta definição moral. “Crítica Semiaberta” tem cara de produção pequena com munição grande, dessas que parecem brincadeira de sala e acabam funcionando como retrato cruel de uma elite opinativa que fala de arte como quem disputa síndico de condomínio de luxo. Se o texto vier afiado e Otávio entregar a dose certa de cinismo preguiçoso, o Porta dos Fundos pode ter encontrado um personagem daqueles que fazem rir e incomodam no mesmo take, o que para mim já vale o clique, a fofoca e o replay.

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