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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Os governadores do Paraná conseguem eleger seus sucessores?

Kátia Flávia

05/08/2026 11h30

Ratinho Junior, Álvaro Dias e Roberto Requião: três nomes que marcaram a sucessão política no Paraná.

Ratinho Junior, Álvaro Dias e Roberto Requião: três nomes que marcaram a sucessão política no Paraná.

A pergunta circula nas rodas políticas do estado desde que ficou claro que Ratinho Junior não disputaria nada em 2026 e permaneceria no Palácio Iguaçu até dezembro, dedicado a eleger quem o substituísse. A resposta que mais se ouve nessas conversas é que nenhum governador paranaense jamais conseguiu. Ela está errada. Aconteceu uma vez, e as circunstâncias daquela vez se parecem bastante com as de agora.

A exceção que costuma ser ignorada

Em 1990, Álvaro Dias entregou o governo a Roberto Requião. O caso costuma ser descartado por um motivo que parece decisivo. Os dois já não estavam no mesmo partido. Álvaro havia deixado o PMDB em 1989, depois de perder as prévias presidenciais para Ulysses Guimarães, e migrado para o PST. Requião seguiu no PMDB. Pelo critério da legenda, não houve continuidade nenhuma.

Só que o critério da legenda não descreve o que ocorreu. Requião era secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Álvaro Dias. Assumiu a pasta em 1989, ou seja, depois da desfiliação do governador, e permaneceu nela até se licenciar, no começo de 1990, para disputar a sucessão. Fábio Campana, secretário de Comunicação Social do governo, coordenou a comunicação da campanha. O candidato saiu de dentro do governo. Quem descarta o caso pelo partido está olhando para o registro no cartório eleitoral e não para o que acontecia dentro do Palácio.

Foi uma disputa difícil. Requião terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 34,24% contra 36% de José Carlos Martinez, que tinha o apoio explícito de Fernando Collor, vencedor da eleição presidencial do ano anterior com cerca de 67% dos votos paranaenses. A virada veio no segundo turno, com 55,7%. Transferência de capital político não é automática. É construção. E ali funcionou.

Há um caso anterior que merece registro honesto. Em 1986, José Richa deixou o governo para disputar o Senado. Assumiu o vice, João Elísio, e a eleição daquele ano manteve o Palácio com o PMDB, desta vez sob Álvaro Dias. Pela aparência, é uma sucessão bem-sucedida conduzida por governador de saída. Só que 1986 não permite separar o que foi transferência do que foi onda. Naquele ano o PMDB elegeu 22 dos 23 governadores do país.

Depois de 1990, quatro derrotas seguidas

Em 1994, com Requião fora para disputar o Senado, o PMDB sequer lançou candidato próprio e se abrigou na candidatura de Álvaro Dias. Jaime Lerner venceu no primeiro turno com 54,85%.

Em 2002, Lerner apoiou Beto Richa. Richa não chegou ao segundo turno, decidido entre Requião e Álvaro Dias.

Em 2010, Requião renunciou para disputar o Senado, deixando Orlando Pessuti no cargo, e o PMDB compôs a coligação de Osmar Dias. Osmar perdeu para Beto Richa por 45,63% a 52,44%.

Em 2018, Beto Richa renunciou em abril e sua vice, Cida Borghetti, disputou com o apoio do PSDB. Fez 15,53%, contra 59,99% de Ratinho Junior.

Quatro tentativas, nenhuma bem-sucedida.

O padrão inverso

Enquanto isso, no mesmo período, todo governador paranaense que buscou a própria reeleição conseguiu. Lerner em 1998, Requião em 2006, Richa em 2014, Ratinho Junior em 2022. Quatro tentativas, quatro vitórias.

O problema com a estatística

Aqui é onde a leitura fácil se desmancha. Quando se olha em que condição cada governador tentou a transferência, o padrão de derrotas fica bem menos impressionante.

Lerner tentou eleger Beto Richa em 2002 com o governo avaliado como ótimo ou bom por 28% dos paranaenses, contra 36% de ruim ou péssimo, segundo o Datafolha de dezembro daquele ano. E não foi uma queda de fim de mandato. A série do instituto mostra 52% em junho de 1999, 44% em junho de 2000 e 27% em junho de 2001. O governo Lernerperdeu a maioria em algum ponto daquele intervalo de doze meses e nunca mais se recuperou. A eleição de 2002 apenas homologou uma derrota decidida um ano e meio antes.

Beto Richa chegou a 2018 em outra condição. O Paraná Pesquisas registrava 65% de aprovação em dezembro de 2014, quando ele acabava de ser reeleito. Em março de 2015, três meses depois, a aprovação estava em torno de 20% e a desaprovação em 76%. Houve recuperação parcial nos anos seguintes, e o último dado antes da renúncia, em setembro de 2017, apontava 37,8% de aprovação.

Requião chegou a 2010 vindo de uma reeleição decidida no segundo turno por 10.479 votos, dois décimos de ponto percentual sobre Osmar Dias em 2006. Quatro anos depois, com o governador de saída para o Senado, o PMDB não lançou candidato próprio e se abrigou na coligação do mesmo Osmar Dias que quase o derrotara.

Sobre Álvaro Dias a medição é escassa, porque a avaliação sistemática de governos estaduais só viraria rotina anos depois. O Datafolha fez duas pesquisas estaduais sobre aquele governo, em março e em setembro de 1990, e a melhor delas registrou 66% de aprovação.

Colocados lado a lado, os casos dizem a mesma coisa. A única transferência que deu certo partiu do governador que estava forte e que ficou no cargo até o último dia. As quatro que fracassaram vieram de governos desgastados, ou de governadores que deixaram o Palácio para disputar o Senado, ou das duas coisas somadas.

O que Ratinho tem e o que ele ainda não tem

O governador chega ao ano da sucessão em outro patamar. O Paraná Pesquisas apontava 73,9% de aprovação em outubro de 2022, subiu para 85% em agosto de 2025 e marcou 84,3% em março de 2026. O IRG chegou a registrar 88,2%. Mesmo a leitura mais conservadora do período, 79,6% em maio de 2026, é superior a qualquer número já medido para um governador paranaense em fim de mandato.

O eleitor paranaense aprova o governo com entusiasmo raro, só que a aprovação não se converte sozinha. Por isso a permanência do governador no cargo e seu engajamento diretamente nesta campanha, sem a necessidade de dividir atenção com uma eleição própria, pode fazer a diferença.

O que está em jogo

Ratinho Junior não tenta algo inédito. Tenta repetir 1990, e a semelhança entre os dois casos é maior do que a distância de trinta e seis anos sugere.

Vale olhar o que separa o caso dele dos que fracassaram. Requião e Richa largaram o Palácio para buscar o Senado. Foram cuidar da própria candidatura. Lerner cumpriu o mandato inteiro e perdeu assim mesmo, porque chegou a 2002 com 28% de ótimo ou bom. Álvaro Dias reunia as duas coisas em 1990. Estava forte e não disputou coisa alguma. Ficou no cargo até o fim e saiu sem mandato. Ratinho Junior fez a mesma escolha. Abriu mão de disputar qualquer coisa em 2026 e permaneceu no Palácio Iguaçu.

O primeiro retorno dessa escolha já apareceu, e não está nas pesquisas. Está nas convenções. Partidos que até pouco tempo tratavam o apoio à chapa governista como hipótese em aberto passaram a aderir, e cada adesão carrega duas coisas: tempo de televisão e capilaridade municipal. É difícil imaginar esse movimento sem o governador presente e inteiramente dedicado à eleição do indicado.

Saberemos a potência dessa iniciativa em outubro. Até lá, a pergunta que interessa não é se o governador é popular. Isso já está medido. É o quanto será possível transferir.

Jeulliano Pedroso é analista político e de comportamento eleitoral. Sociólogo e mestre em Antropologia Social pela UFPR, com especialização em Ciência Política e estudos na London School of Economics.

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