Eu estava em Petrópolis esta manhã, ainda de roupão, tomando meu café com a serra inteira coberta de neblina, quando o telefone tocou em chamada de vídeo. Do outro lado, a Sônia, minha informante de plantão lá pelos lados de Goiás, virou a câmera e me mostrou a cena mais surreal do ano, um jatobá de muitos metros pendurado num guindaste, balançando no ar feito diva sendo carregada para o camarim. Larguei a xícara na hora e liguei o modo coluna, porque mudança de endereço com aparato desse tamanho só acontece com gente muito importante ou, no caso, com árvore muito importante.
O babado é em Anápolis, no interior de Goiás, onde 39 árvores adultas estão literalmente trocando de bairro. Angico vermelho, jatobá, ypê branco e pau-ferro foram retiradas do chão e transplantadas para um novo lar, num trabalho inédito na cidade que começou na sexta passada e foi concluído agora nesta sexta. À frente da operação está o engenheiro civil Cláudio Rodrigo, que precisou de nove profissionais, um guindaste de 70 toneladas, caminhão muck e escavadeiras para arrancar cada gigante do lugar. Segundo ele, só a retirada e o transporte de cada uma leva, em média, duas horas, o que dá a essas senhoras um traslado mais demorado que voo internacional.

E não pensem que foi do dia para a noite. Desde abril a equipe vem preparando o terreno com pompa de cirurgia, primeiro a poda dos galhos para aliviar o peso, depois a tal sangria das raízes, que é escavar em volta da árvore e embrulhar as raízes em plástico filme para não perder o adubo natural da terra. O que me derrubou foi a origem dessas plantas, porque pelo que me contaram são espécies fincadas pelos primeiros frades franciscanos que chegaram à cidade, o que faz delas praticamente as grandes damas fundadoras de Anápolis. Quem está erguendo o tal Assis Business & Mall por ali é a Emisa Incorporadora, que preferiu carregar as veteranas no colo a derrubá-las.

Cada uma já tem endereço novo certinho. A maioria foi para uma área de preservação no bairro Jundiaí, pertinho de onde o shopping vai subir, e um jatobá sortudo foi parar no parque Jaiara, que a prefeitura anda revitalizando. As plantas foram replantadas viradas para o sol nascente, na mesma posição a que estavam acostumadas, porque até árvore tem suas manias e não gosta de acordar com a luz batendo no lado errado. Tem biólogo da prefeitura supervisionando, treinamento, irrigação diária por mais dois meses e ainda a doação de 7.050 mudas nativas para a cidade, num pacote de cuidado que muita celebridade gostaria de ter na própria mudança.

Confesso que fiquei aqui pensando na minha lista de prioridades. Essas árvores fizeram a mudança mais cara e mais bem cuidada que esta coluna viu o ano inteiro, com guindaste, escolta de máquina pesada e biólogo de plantão, enquanto eu ainda brigo com a transportadora por causa de uma cômoda arranhada. Da próxima vez que alguém da elite vier reclamar que mudar de casa é um sofrimento, mando a foto desse jatobá voando em Anápolis e anexo a conta. Se for para envelhecer, que seja igual a elas, quase cem anos de raiz firme e ainda recebendo tratamento de estrela.