Eu estava na varanda de casa, no Cosme Velho, com o Cristo chuvoso , quando uma amiga me chamou por vídeo direto de Salvador e a xícara de café quase escorregou do parapeito. A OpenAI, dona do ChatGPT, vai dar uma aula gratuita sobre processo criativo e inteligência artificial no MUNCAB, o museu nacional dedicado à cultura negra brasileira, na Rua das Vassouras, no Centro Histórico. Quinta que vem, dia 5, das 16h às 17h, em parceria com o AFROPUNK e a Dendezeiro.
A engrenagem é bem amarrada. A aula nasce da collab entre as três marcas que pariu uma jaqueta apresentada na última São Paulo Fashion Week, com referências do hip hop brasileiro, da estética dos anos 1980 e grafismos do AFROPUNK, tudo sob a assinatura “Feito junto com o ChatGPT”. No ateliê, Hisan e Pedro cruzaram esboço, colagem e pesquisa de imagem com conversas na ferramenta, mas desenho, material, modelagem e acabamento ficaram na mão deles, e a peça leva a assinatura da dupla. Na língua da publicidade, isso se chama ativação com produto no centro: a marca mostra a ferramenta funcionando na mão de quem tem repertório, e o criador sai da sala sabendo usar.

Os números explicam o endereço. O Brasil está entre os três maiores mercados do ChatGPT em usuários ativos semanais, a base no país quase dobrou em um ano e os brasileiros mandam cerca de 215 milhões de mensagens por dia para o robô. O país também lidera o mundo em uso de imagens dentro do ChatGPT, justamente a parte do processo que a Dendezeiro vai abrir no palco. Do outro lado da parceria, o AFROPUNK gerou mais de R$ 130 milhões em impacto econômico em 2025 e recebeu público de 36 países.
O elenco tem peso. A Dendezeiro, que eu chamo de alfaiataria baiana com passaporte carimbado, foi fundada em 2019 em Salvador, coleciona prêmios em Cannes, já desfilou no Brasil e na Itália e tem conexões com nomes como SZA, Viola Davis, Normani e Alton Mason. Quem opera o AFROPUNK no Brasil é a IDW Company, empresa liderada majoritariamente por mulheres e com currículo em projetos ligados a Beyoncé, Erykah Badu e Victoria Monét, representada aqui pela sócia Ana Amélia Nunes. Pela OpenAI, quem assina o discurso é Christian Rôças, head de Comunidade, Criadores e Talentos para a América Latina, que vende a aula como o primeiro passo para tirar ideia do papel.
O capítulo anterior dessa novela tem data. Em 27 de agosto de 2026, a OpenAI abriu sua primeira operação comercial no Brasil, com escritório em São Paulo, e já vinha costurando a marca com a cultura nacional, como na conversa com Alcione no modo voz do ChatGPT. A Dendezeiro, por sua vez, estreou na SPFW em 2022 com o fashion film “Tabuleiro“, inspirado no tabuleiro de acarajé, e desde então virou vitrine de moda autoral baiana, com collab de Havaianas no currículo.
Minha leitura: no Brasil, a OpenAI já ganhou o jogo do awareness, todo mundo sabe o que é ChatGPT. A disputa agora é por uso qualificado, e o atalho mais inteligente passa por criadores com credibilidade cultural, que mostram a ferramenta como apoio de pesquisa e deixam claro quem decide. Colocar a aula em Salvador dois dias antes do festival, que acontece em 7 e 8 de novembro, é plantar a marca onde a conversa já está fervendo.
No meu radar, e isso é leitura minha, a assinatura “Feito junto com o ChatGPT” tem cara de formato que vai se repetir com outras marcas autorais e outras praças culturais do país. Não me espanta se Google e Meta responderem com ativações culturais próprias para seus assistentes. O risco no horizonte é o debate de autoria na moda, e a Dendezeiro se blindou bem ao dizer, com todas as letras, que a assinatura criativa está nas escolhas da equipe.
Para quem lê, o recado é prático. A inscrição é gratuita no site feitojuntocomochatgpt.com.br/#aula, as vagas são limitadas e o mesmo endereço vai liberar uma videoaula gratuita sobre a criação da jaqueta, ótima notícia para quem não estará em Salvador. Estilista iniciante, artista visual, dono de pequena marca: sai dali com método de pesquisa de referência e visualização que dá para aplicar no dia seguinte.

Veredito: a OpenAI percebeu que, para vender inteligência artificial para quem cria, precisa de quem cria com sotaque, história e caderno de esboço na mão. Escolheu a dupla certa, a cidade certa e a semana certa. Jogada de quem leu o briefing inteiro.