Quando uma mulher recebe o diagnóstico de câncer de mama, toda a atenção costuma estar voltada para o tratamento da doença. Cirurgia, quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia representam etapas fundamentais para aumentar as chances de cura e sobrevida.
Mas existe uma realidade que muitas pacientes descobrem apenas depois do fim do tratamento: a menopausa induzida ou agravada pelas terapias oncológicas. Conhecida como oncomenopausa, essa condição pode provocar ondas intensas de calor, sudorese, alterações do sono, fadiga, dificuldade de concentração, mudanças de humor e redução da libido, sintomas que frequentemente comprometem a qualidade de vida por muitos anos.

Segundo o mastologista Dr. Wesley Pereira Andrade, mestre e doutor em Oncologia, esse é um tema que ainda recebe pouca atenção, apesar de afetar um número crescente de mulheres.
“Como mastologista, acompanho diariamente mulheres que venceram o câncer, mas continuam enfrentando sintomas que comprometem profundamente sua qualidade de vida. Elas descrevem noites interrompidas por ondas intensas de calor, roupas encharcadas de suor, fadiga persistente, alterações de humor, dificuldade de concentração e perda do desejo sexual. Embora esses sintomas sejam comuns durante a menopausa natural, nas pacientes com câncer de mama eles costumam ser mais intensos, surgem de forma abrupta e podem persistir durante anos”, afirma.
Uma novidade aprovada recentemente pela Anvisa pode mudar esse cenário. Trata-se do fezolinetanto, primeiro medicamento não hormonal desenvolvido especificamente para tratar os fogachos, nome técnico das ondas de calor e da sudorese associadas à menopausa.
De acordo com o especialista, o medicamento atua bloqueando os receptores da neurocinina B no hipotálamo, reduzindo as ondas de calor sem utilizar estrogênio ou progesterona.
“É nesse contexto que a aprovação do fezolinetanto representa um avanço importante. Pela primeira vez, mulheres passam a contar com um medicamento não hormonal desenvolvido especificamente para tratar os fogachos da menopausa. Isso faz dele uma alternativa particularmente relevante para mulheres com contraindicação à terapia hormonal, incluindo muitas sobreviventes do câncer de mama”, explica.
O médico ressalta que o tratamento não substitui a terapia hormonal quando ela pode ser utilizada, mas amplia significativamente as opções terapêuticas para pacientes que, durante décadas, tiveram poucas alternativas para controlar os sintomas.
A discussão faz parte de um conceito que ganha cada vez mais espaço na oncologia mundial: o de sobrevivência ao câncer, que busca olhar além da cura da doença.
“Hoje sabemos que sobreviver é apenas parte da história. Também precisamos garantir que essas mulheres durmam bem, mantenham sua vida profissional, preservem seus relacionamentos, pratiquem atividade física e tenham bem-estar físico e emocional”, destaca.
Para Dr. Wesley Pereira Andrade, o sucesso do tratamento oncológico não pode mais ser medido apenas pelos anos de vida conquistados.
“A mulher que vence um câncer de mama deseja voltar a dormir uma noite inteira, trabalhar sem fadiga, viajar sem medo de uma crise de calor, viver sua sexualidade sem dor e recuperar sua autoestima. Esses objetivos não são secundários. Eles fazem parte do tratamento.”

Segundo o especialista, os próximos anos devem consolidar uma mudança importante na forma como as sobreviventes do câncer de mama são acompanhadas.
“A boa notícia é que essa mudança já começou. Cada novo avanço terapêutico reforça uma ideia simples, mas poderosa: curar o câncer é fundamental. Devolver qualidade de vida às mulheres que o venceram é igualmente indispensável”, conclui.