Os livros espalhados pelos cenários de “Quem Ama Cuida” não foram escolhidos apenas para deixar a decoração mais sofisticada. Os títulos funcionam como pistas simbólicas sobre o assassinato de Arthur Brandão, personagem de Antonio Fagundes, e podem ajudar o público a descobrir o criminoso.
Depois de conferir o colar, guardar a joia e ajudar a atriz a sair do figurino sem destruir o penteado, deixei o estúdio do Jardim Botânico. Segui para uma livraria na Gávea, onde buscaria um presente encomendado para uma amiga escritora. Foi entre Dostoiévski e Homero que uma produtora da Globo me contou o truque da novela. Minha filha, parei diante da prateleira: agora até livro de cenário precisa ser interrogado.

A ideia partiu da diretora artística Amora Mautner, que sugeriu aos autores Walcyr Carrasco e Claudia Souto a criação de um jogo narrativo com os telespectadores. As obras literárias aparecem estrategicamente nas cenas para antecipar conflitos, levantar suspeitas e alimentar teorias. A informação foi revelada pela coluna de Carla Bittencourt, no Portal LeoDias.
Entre os livros já exibidos estão “A Odisseia”, de Homero, além de “O Idiota” e “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski. Cada obra estabelece uma conexão com personagens ou acontecimentos centrais da novela.
“A Odisseia” remete à jornada de Adriana, vivida por Leticia Colin, que enfrenta obstáculos enquanto tenta reconstruir a própria vida e descobrir a verdade. Assim como o herói de Homero, ela atravessa uma longa caminhada marcada por perdas, provações e desejo de retorno.
“O Idiota” conversa com personagens que tentam preservar alguma integridade em meio às disputas familiares, ambições e jogos de interesse. Já “Crime e Castigo” traz as pistas mais evidentes: assassinato, culpa, moralidade e as consequências psicológicas de um crime.
Nada, portanto, está apoiado sobre uma mesa por acaso. As capas, os autores e até a posição dos livros ajudam a ampliar o mistério sobre quem matou Arthur Brandão.
A estratégia não é inédita na carreira de Amora. Em “Avenida Brasil”, Tufão, interpretado por Murilo Benício, aparecia frequentemente lendo. Os títulos escolhidos ajudavam a revelar características do personagem e dialogavam com os acontecimentos da trama.

Em “Quem Ama Cuida”, porém, a diretora elevou a brincadeira. A literatura deixou de funcionar apenas como ferramenta para construir personalidade e passou a integrar diretamente a investigação do assassinato.
A partir de agora, telespectador atento não pode olhar apenas para depoimento, herança, álibi e cara de culpado. Precisa pausar a cena, ampliar a estante e pesquisar o resumo do livro. A Globo transformou a novela das nove em clube de leitura criminal, e eu já desconfio de qualquer personagem que aparecer segurando Agatha Christie.