Com 19 graus, céu nublado e o Cosme Velho com aquela cara de domingo em que até o Cristo parece querer saber da fofoca, eu levantei, fui para a cozinha e botei a água do café para esquentar. Aí abri o celular e dei de cara com a informação: 11 pontos para o Jornal Nacional em São Paulo.
Eu parei.
Onze?
Antes de decretar crise na Globo, queda histórica, fim da televisão ou mandar alguém acender uma vela para o William Bonner, a pergunta me pareceu outra: o que aconteceu com a medição do Ibope neste sábado?
A edição do Jornal Nacional apresentada por Márcio Bonfim e Aline Midlej, entre 20h55 e 21h46, apareceu com 11 pontos na prévia da Grande São Paulo. O número chama atenção não apenas por ser baixo. Se confirmado, poderá representar o pior desempenho do telejornal em seus mais de 57 anos de história.

Só que os detalhes deixam a história ainda mais esquisita. A prévia aponta que o JN começou com pico de 12,66 pontos e chegou a cair para 9,99. Em relação à média dos quatro sábados anteriores, seria uma queda de aproximadamente 44%.
Passei o café e fiquei olhando aqueles números. Porque audiência cai, hábito de consumo muda, streaming cresce e televisão aberta não vive mais em 1995. Tudo isso a gente sabe. Mas uma queda desse tamanho, de uma semana para outra, sem uma alteração extraordinária na programação capaz de explicar o movimento, naturalmente acende uma luz sobre o próprio dado.
E eu não fui a única a estranhar.
Murilo Fraga, diretor artístico e de programação do SBT, questionou publicamente a prévia e apostou que os números poderão ser corrigidos na consolidação. “Aguardem um pedido de desculpas na terça-feira por parte do instituto. Ou já viram o principal telejornal do país dando 10 pontos em SP? É só 100% de margem de erro. Inacreditável!”, escreveu.
Tem mais. Durante a faixa, o conjunto das plataformas de streaming apareceu com 20,35 pontos, enquanto o Jornal Nacional ficou com 11. A TV por assinatura marcou 4,43; a Record, 4,02; e o SBT, 3,04.
Foi aí que eu sentei com meu café e pensei: ou São Paulo resolveu mudar radicalmente seus hábitos televisivos justamente neste sábado ou alguém vai precisar explicar muito bem esses números na terça-feira.

Porque, neste momento, é importante separar as coisas. Não há confirmação de que tenha ocorrido erro técnico na medição. O que existe é uma prévia extremamente fora da curva e questionamentos públicos sobre sua consistência. A resposta deverá ficar mais clara com os dados consolidados.
Portanto, por enquanto, eu guardaria o obituário do Jornal Nacional na gaveta.
A história mais interessante deste domingo talvez não seja “a Globo despencou”. É outra: o Jornal Nacional realmente deu 11 pontos ou estamos diante de uma anomalia na medição de audiência?
A consolidação prevista para terça-feira (8) ganhou um interesse que normalmente não teria. E eu vou esperar com o café passado, porque, se esse 11 virar outra coisa, a crise desta história talvez nunca tenha sido no Jornal Nacional.