Menu
Kátia Flávia
Kátia Flávia

O hotel onde Pelé pescava e a Seleção virava bicampeã do mundo em 1962

O Grand Resort Serra Negra, no interior paulista, foi quartel-general da equipe em duas Copas seguidas, 62 e 66. E Kátia teve que sentar numa pedra de Amalfi pra processar que o Brasil inteiro dormiu nessa história

Kátia Flávia

16/04/2026 17h00

Grand Resort Serra Negra preserva história da Seleção Brasileira nas Copas de 1962 e 1966 Créditos: Juan Gasparin

Grand Resort Serra Negra preserva história da Seleção Brasileira nas Copas de 1962 e 1966 Créditos: Juan Gasparin

Me ligaram de Serra Negra enquanto eu subia a costeira amalfitana de óculos escuros e coração aberto para o drama alheio, e juro por Nossa Senhora de Pompeia que eu quase escorreguei na calçada quando ouvi o que tinha pra contar. Existe um hotel no interior de São Paulo que abrigou a Seleção Brasileira antes de ela ir ao Chile buscar o bicampeonato em 1962, e depois de novo em 1966 antes da Copa na Inglaterra, e esse endereço ficou sessenta anos preservando essa memória enquanto o Brasil ficava discutindo se Neymar é raiz ou planta ornamental.

O Grand Resort Serra Negra, fundado em 1942 e encravado na Serra da Mantiqueira, foi escolhido duas vezes como base da Seleção por ter exatamente o que a CBD queria: estrutura hoteleira de excelência, clima ameno e uma tranquilidade que hoje seria vendida como wellness retreat a quatro mil reais a diária. Na época não existia ainda a Granja Comary, e Serra Negra reunia o que o futebol brasileiro precisava. O historiador local Nestor Leme, que acompanhou as duas concentrações, recorda que a chegada da Seleção transformou a cidade de tal forma que jornalistas estrangeiros desceram lá para cobrir os treinos, e Serra Negra foi para o mundo antes de qualquer campanha de turismo.



O que a fonte me contou, e que me fez pedir um segundo limoncello antes de reagir, é que Pelé andava pela rua, entrava nos bares e pescava nos pontos turísticos da cidade como qualquer cidadão comum. Existe fotografia disso. O Rei do Futebol de chinelo em ponto turístico de Serra Negra. Em 1965, o Estádio Municipal passou por uma reforma especial para adaptar o gramado às medidas dos campos ingleses, porque a cidade se mobilizou de verdade, e a inauguração do estádio teve a presença dos craques. Em 1966, com a convocação ampliada e cheia de pressão política, chegaram a ser trinta, trinta e dois jogadores concentrados lá enquanto os cortes do elenco aconteciam em tempo real. Imagine o clima naquele café da manhã.

O hotel mantém hoje um memorial dedicado ao futebol com um monumento em que estão gravadas em cimento as assinaturas de Pelé, Garrincha, Gilmar e Zagallo. Fotografias históricas espalhadas pelos corredores reconstroem a cena. Com mais uma Copa do Mundo chegando, esse endereço se transforma num ponto de interesse que conecta memória, turismo e esporte de um jeito que nenhuma campanha publicitária consegue inventar: porque é real, porque aconteceu, e porque o Brasil praticamente não sabia.

Kátia registrou, ficou emocionada e teve que respirar fundo três vezes antes de continuar subindo Amalfi. Pelé pescando no interior paulista antes de ir buscar o bicampeonato. Eu também quero uma vida assim.​​​​​​​​​​​​​​​​

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado