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Kátia Flávia
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O fenômeno Althera: como uma healthtech enxuta usa IA na telemedicina para enfrentar obesidade no Brasil

CEO Vander Valente explica como plataforma une acompanhamento médico remoto, acesso facilitado a medicamentos e suporte contínuo para reduzir abandono do tratamento

Kátia Flávia

26/05/2026 16h00

Para o CEO da Althera, Vander Valente, acompanhamento contínuo é peça-chave no combate à obesidade.

Para o CEO da Althera, Vander Valente, acompanhamento contínuo é peça-chave no combate à obesidade.

O combate à obesidade no Brasil ganhou um novo aliado que atua na fronteira entre a conveniência digital e o rigor clínico. Com mais de 55% da população vivendo acima do peso, segundo dados da ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica), brasileiros convivem com uma realidade marcada por dificuldade de acesso a tratamentos, abandono frequente de protocolos e altos custos de medicação. Em meio a esse cenário, plataformas digitais começam a ganhar espaço ao propor um modelo que vai muito além da simples marcação de consulta online.

É nesse movimento que surge a Althera, healthtech focada em tratamento da obesidade que já registrou mais de 15 mil pessoas buscando informações e serviços em apenas três meses de operação.

A proposta da plataforma combina atendimentos médicos remotos, protocolos clínicos estruturados e entrega domiciliar de medicamentos feita por farmácias parceiras. O objetivo é reduzir as chamadas “fricções” do tratamento, termo usado para definir barreiras que dificultam a continuidade do acompanhamento médico.

“Um dos principais obstáculos para manter um tratamento contra obesidade, hoje, é o custo dos medicamentos. Mas isso vai mudar com a queda de patentes e o desenvolvimento de novas drogas. O segundo grande obstáculo é o acesso ao médico mesmo”, afirma Vander Valente, CEO e sócio fundador da Althera.

Healthtech brasileira quer reduzir abandono de tratamentos com modelo digital integrado.
Healthtech brasileira quer reduzir abandono de tratamentos com modelo digital integrado.

Segundo ele, o tratamento da obesidade exige acompanhamento contínuo, revisões frequentes e suporte médico constante, algo que nem sempre é viável nos modelos tradicionais.

“Esse tratamento precisa de acompanhamento contínuo e de ajustes mensalmente. Além dos efeitos colaterais ao longo do tempo. Então, o acesso ao médico, de maneira recorrente, é um problema considerável nos atendimentos tradicionais”, explica.

A plataforma nasceu justamente para tentar diminuir esse desgaste na jornada do paciente. Vander Valente afirma que o primeiro desafio foi tornar o tratamento mais acessível financeiramente, principalmente pela negociação direta com farmácias parceiras.

“Temos parcerias com farmácias que oferecem a medicação com um custo um pouco mais acessível. Existiu todo um trabalho de negociação com as farmácias para que isso fosse possível”, conta.

Outro diferencial apontado pelo empresário está na rapidez do atendimento remoto, onde o paciente pode fazer sua consulta sem sair de casa.

“Após a avaliação médica, em um ou dois dias, o paciente já tem toda a orientação médica que precisa para começar o tratamento”, afirma.

Mas, para a empresa, apenas oferecer teleconsulta não resolve o problema da evasão. O foco maior está no acompanhamento contínuo, especialmente nos primeiros meses de tratamento. Esse acompanhamento é considerado essencial para ajustes periódicos e monitoramento de possíveis efeitos colaterais.

“Tratar a obesidade leva muito mais que dois ou três meses, porque a obesidade é considerada uma doença crônica. Então, a adesão permite que o médico fique próximo desse paciente e, se ele passa mal com algum efeito colateral, já tem um acesso facilitado para mudar de medicação ou amenizar esses efeitos”, afirma Vander Valente.

O modelo integrado funciona de forma digital desde a triagem inicial até o pós-consulta. O paciente passa por questionários online, recebe avaliação médica, envia exames e, após aprovação clínica, pode optar por receber a medicação diretamente em casa ou comprar por conta própria. Depois disso, o médico mantém contato frequente, por meio da plataforma, para monitorar sintomas, esclarecer dúvidas e reforçar o acompanhamento.

“Paciente pergunta se pode fazer isso ou aquilo, se o que ele está sentindo é normal, etc. E ter o médico ali sempre pronto para perguntas e respostas é crucial para o paciente se sentir bem cuidado”, destaca.

Ainda segundo Vander Valente, boa parte das pessoas que procuram a plataforma já convivem com obesidade em níveis avançados.

“Cerca de 70% das pessoas que procuram a nossa plataforma e começam a preencher a avaliação, têm obesidade nos níveis 1, 2 e 3. Desses, 30% dos pacientes têm obesidade nível 3”, revela.

O empresário também chama atenção para um perfil crescente de pacientes que nunca haviam iniciado tratamento justamente pela dificuldade de acesso.

“Esse é um perfil bem claro de quem procura a Althera”, conta.

Embora o atendimento remoto ainda gere dúvidas em parte da população, Vander Valente acredita que a resistência diminuiu bastante após a popularização da telemedicina no Brasil durante a pandemia.

“Existe, sim, dúvidas das pessoas, se os tratamentos oferecidos são reais, se elas vão receber os cuidados que precisam, se não vão cair em um golpe”, comenta. “São dúvidas que são respondidas e, depois que elas passam pelas consultas com o médico, os receios vão embora e fica somente a vontade de seguir os tratamentos.”

Para o CEO, a combinação entre tecnologia e rigor clínico é o que sustenta a confiança do paciente e funciona como principal pilar da companhia.

“A tecnologia entra para descomplicar a vida do paciente e para elevar o nível do rigor da atuação médica”, pontua.

Com o crescimento acelerado da telemedicina e uma demanda reprimida por tratamentos contínuos mais acessíveis, a Althera aposta que modelos digitais integrados devem ganhar cada vez mais espaço no combate à obesidade e outras doenças crônicas nos próximos anos.

A tendência é que plataformas digitais deixem de ser apenas uma alternativa prática para se tornarem parte essencial do acompanhamento médico contínuo, principalmente em um país onde milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades para manter tratamentos de longo prazo.

Para quem convive diariamente com a obesidade, a dificuldade muitas vezes vai além da balança. Envolve cansaço, frustração, tentativas interrompidas, medo de julgamento e a sensação constante de enfrentar tudo sozinho. É justamente nesse ponto que a Althera quer atuar: aproximando médicos de pacientes de forma mais simples, acessível e contínua. A proposta da plataforma não é vender uma solução milagrosa, mas oferecer suporte real para quem precisa de acompanhamento sério, orientação médica e alguém presente durante todas as etapas do tratamento.

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