Estava aqui na região da Pulgia , num bar em Bari onde o vinho custa o que deveria e a conta chega sem cerimônia, quando o telefone começou a vibrar com gente do setor hoteleiro mandando release. Eu odeio release, sabem. Mas esse tinha um CEO brasileiro na ITB Berlin, que é a maior feira de turismo do planeta, e uma frase que resume anos de hipocrisia institucional do mercado. Fiquei. Pedi mais um. Continuei lendo.
Gabriel Fumagalli, CEO da Xtay, levou 25 líderes da hotelaria brasileira para Berlim para dizer em público o que todo mundo já sabia em privado: hotel e short-term rental estão virando a mesma coisa, e quem fingir que não viu vai perder o bonde. A Xtay já opera mais de 700 unidades no Brasil com check-in digital, atendimento híbrido com inteligência artificial e análise automatizada de avaliações de hóspedes, e a empresa quer levar esse modelo para a hotelaria tradicional em 2026. O mercado global de short-term rentals deve superar 107 bilhões de dólares até 2027 e a Deloitte já sinalizou tecnologia e automação como prioridades estratégicas diante dos custos operacionais em alta. Alguém avisou os hotéis que o futuro não enviou convite formal?



O movimento no mundo corporativo digital depois da repercussão foi aquele clássico que eu adoro observar: executivos de redes hoteleiras curtindo com conta de nicho, operadores de Airbnb celebrando como se a declaração fosse troféu deles, e pelo menos dois nomes que eu conheço pessoalmente fingindo que não tinham lido nada. Vi print de grupo de WhatsApp de hoteleiros com emoji de palhaço ao lado do logo da Xtay. Vi comentário de “já fazemos isso há anos” de empresa que até semana passada não tinha sequer check-in sem papel. A memória de mercado é seletiva com uma precisão que dá até inveja.
O que Fumagalli fez em Berlim foi nomear em voz alta uma ansiedade que o setor hoteleiro carregava há uns cinco anos sem conseguir articular direito. O short-term rental cresceu com menos fricção operacional e mais tecnologia por pura necessidade de sobrevivência, e agora a hotelaria tradicional precisa correr atrás de práticas que o Airbnb e companhia inventaram no improviso. A missão “Hoteleiros do Futuro” soa bem no papel, mas o dado que fica é que uma empresa brasileira de aluguel de curta duração foi à maior feira de turismo do mundo e saiu de lá como referência de inovação para hoteleiros tradicionais. Isso diz mais sobre o estado da indústria do que qualquer painel estratégico com slide de tendência.
Fiquei pensando nisso tudo enquanto o barman milanese me servia sem perguntar se eu queria mais, com aquela leitura de ambiente que nenhum algoritmo ainda reproduz com graça. Mas, bom, se um dia reproduzir, a Xtay provavelmente já vai estar em fase dois do desenvolvimento.