Eu estava em casa tentando decidir se encerrava o dia ou aceitava que a agenda ainda tinha vida própria quando chegou a história de Cristiani Oliveira. Abri esperando encontrar vestido, coroa, preparação e aquela matemática tradicional de concurso de beleza. Só que encontrei uma mulher de 44 anos, mãe de uma jovem de 20, advogada e com uma história que começou muito antes de qualquer faixa de miss. Começou dentro de casa, acompanhando o pai enfrentar o Parkinson.
Cristiani Oliveira representa a capital paulista no Miss Universe São Paulo e decidiu transformar a visibilidade da competição em espaço para falar sobre uma realidade que conhece há mais de três décadas.

Seu pai, hoje com 74 anos, convive com a doença de Parkinson desde que Cristiani ainda era menina. A condição neurodegenerativa, progressiva e sem cura também provocou mudanças profundas na rotina da família e fez com que ele fosse reformado do Exército.
“Minha causa começou dentro da minha casa. Eu convivo com o Parkinson do meu pai há mais de 30 anos.”

E aqui está o detalhe que me fez parar. Não estamos falando de alguém que escolheu uma causa depois de colocar a faixa no corpo. Cristiani cresceu dentro dela.
A convivência com o Parkinson fez com que ela acompanhasse não apenas os impactos da doença no pai, mas também aquilo que acontece ao redor de quem recebe o diagnóstico. Família, rotina, cuidado e acolhimento entram nessa conta.

Por isso, levar o tema para o Miss Universe São Paulo virou uma maneira de colocar luz sobre pessoas que muitas vezes atravessam esse processo longe dos holofotes.
E a relação com o pai já chegou a mudar até mesmo os caminhos de Cristiani nos concursos.

Antes da atual disputa, ela conquistou títulos como o Miss Fashionista América 2022. Em outra competição, porém, precisou interromper sua participação e voltar para casa para cuidar do pai, que estava debilitado.
Eu fiquei olhando para essa parte da história porque a vida tem umas ironias bonitas quando resolve colaborar. Anos atrás, Cristiani deixou uma competição por causa da saúde do pai. Agora, volta aos holofotes justamente carregando a história dele como sua principal bandeira.
Mas existe outra barreira importante sendo quebrada nessa participação: a idade.

Durante anos, Cristiani não poderia disputar o Miss Universe por causa das antigas regras do concurso. O limite máximo de idade, que restringia a participação de candidatas mais velhas, acabou retirado. Mudanças iniciadas em 2023 também ampliaram o espaço para mulheres casadas, mães e grávidas.
Foi aí que um sonho que parecia ter perdido o prazo voltou para a agenda.
“Foi esse o motivo de eu estar aqui hoje: para dar visibilidade e inspirar mulheres a terem coragem de realizar um sonho.”
Aos 44 anos e mãe de uma jovem de 20, Cristiani Oliveira chega à competição em um momento da vida muito diferente daquele tradicionalmente associado às misses. Concilia a disputa com a advocacia, a maternidade e todas as experiências acumuladas antes de decidir voltar à passarela.
“Hoje existem mulheres de diferentes idades e com histórias diferentes, e isso abriu novas oportunidades para que cada uma pudesse viver essa experiência”, pontua a advogada.
E talvez essa seja uma das mudanças mais interessantes desse novo momento dos concursos. Durante décadas, existia quase uma data de validade para o sonho de ser miss. Passou dos 28? A porta fechava. Casou? Outra restrição. Virou mãe? Mais uma barreira.
Cristiani entra justamente depois que algumas dessas portas começaram a cair.
Só que ela faz questão de deixar claro que não pretende ocupar esse espaço apenas para disputar uma coroa.
“Eu não estou aqui só por beleza e por uma coroa de status. Só quem realmente está nessa situação, convivendo com alguém doente, sabe o quanto é desafiador.”
Para ela, o resultado diante dos jurados é apenas uma parte da experiência. Existe também a possibilidade de fazer com que outras famílias que convivem com o Parkinson se reconheçam naquela história.
“Quero ganhar a coragem para inspirar mulheres a realizarem seus sonhos antigos. É uma causa real, autêntica, porque nasceu dentro da minha casa”, destacou.
Eu fechei a agenda pensando que talvez a parte mais interessante dessa história esteja justamente no tempo. Aos 44 anos, Cristiani Oliveira está vivendo um sonho que durante muito tempo tinha regra dizendo que ela já estaria velha demais para viver.
Voltou aos concursos depois de já ter interrompido uma competição para cuidar do pai. Agora entra na passarela levando justamente esse pai, simbolicamente, junto com ela.

“É um sonho antigo que eu estou transformando em realidade. Nunca é tarde para recomeçar”, finaliza.
E, meus amores, pode até existir uma candidata que saia dali com a coroa. Mas conseguir chegar aos 44 anos, olhar para um sonho que parecia ter vencido e decidir que quem estava vencida era a regra já é um belo título para carregar.