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Kátia Flávia
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O beijo de Mau Mau e Felipe devolveu à Globo a coragem de fazer novela

Com a escrita de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, a direção de Amora Mautner e Cazuza na trilha sonora, Quem Ama Cuida entrega uma das cenas mais marcantes da dramaturgia recente.

Kátia Flávia

31/10/2026 11h54

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O beijo rolou em um momento em que eles ficam a sós na escola de dança de Dora onde se conheceram.

Amores , existem cenas que acontecem numa novela. E existem cenas que justificam a existência de uma novela. O beijo entre Mau Mau e Felipe, exibido nesta sexta-feira (30), em Quem Ama Cuida, pertence à segunda categoria. Foi comovente, desejado, cuidadosamente construído e, sobretudo, humano. Uma dessas raras ocasiões em que a televisão abandona a obrigação de produzir acontecimentos e se permite produzir sentimentos. A Globo, que tantas vezes parece ter esquecido a própria grandeza, resolveu lembrar ao público que sabe fazer dramaturgia. E sabe fazer muito bem.

Foram 141 capítulos até que Mau Mau, interpretado por João Victor Gonçalves, e Felipe, vivido por Pietro Antonelli, finalmente se beijassem. Cento e quarenta e um capítulos! É praticamente uma pós-graduação em paciência afetiva. Mas havia algo extraordinariamente bonito naquela espera: dois personagens tentando compreender sentimentos que não cabiam nas certezas que tinham sobre si mesmos. E quando o beijo aconteceu, ao som de Preciso Dizer Que Te Amo, de Cazuza, não foi apenas uma demonstração de carinho. Foi o encontro de duas vulnerabilidades. E vulnerabilidade, quando bem interpretada, é muito mais interessante do que qualquer escândalo.

É preciso reconhecer a habilidade de Walcyr Carrasco. Poucos autores compreendem tão profundamente os mecanismos emocionais de uma novela. Walcyr conhece o tempo da espera, o peso de um silêncio e, principalmente, o instante exato em que um personagem precisa abandonar as palavras para finalmente existir. Há uma inteligência afetiva em sua dramaturgia que não se aprende simplesmente dominando técnicas de roteiro. É preciso conhecer gente. Conhecer suas contradições, seus medos, seus desejos mais íntimos. E Walcyr conhece. Ao lado de Claudia Souto, sua parceira na construção dessa história, e dos demais profissionais responsáveis pelo texto, conseguiu transformar um encontro amoroso em algo muito maior do que uma sequência romântica. Conseguiu fazer televisão com alma. E isso, convenhamos, anda fazendo uma falta danada.

Mas seria uma injustiça imperdoável falar dessa cena sem reconhecer o trabalho de Amora Mautner. Amora atravessa um momento de impressionante maturidade artística. Está segura, tranquila, sagaz. Não parece mais interessada em provar que sabe dirigir. Simplesmente dirige. E essa segurança aparece justamente naquilo que ela escolhe não fazer. Não há exageros, movimentos desnecessários ou aquela ansiedade de transformar cada enquadramento numa demonstração de virtuosismo. Sua direção compreende que a emoção não precisa ser empurrada para dentro da casa do espectador. Ela precisa encontrar o caminho sozinha. Amora teve a inteligência de respeitar o silêncio, a hesitação, a proximidade dos corpos. E, sobretudo, teve a sabedoria de não atrapalhar o amor.

O resultado foi uma sequência de elegância. Nada de sentimentalismo mambembe, de emoção fabricada ou de uma encenação desesperada para arrancar lágrimas. Tudo parecia estar exatamente onde deveria. João Victor Gonçalves e Pietro Antonelli encontraram o tom de seus personagens com uma entrega admirável. Não havia afetação, tampouco aquela preocupação excessiva em fazer uma cena histórica. Havia dois rapazes apaixonados. E isso bastava. Quando uma direção consegue fazer o extraordinário parecer absolutamente natural, estamos diante de algo que merece ser reconhecido.

E então veio Cazuza. Ah, Cazuza! Cantada pela enlouquente Bebel Gilberto. Porque existe uma diferença monumental entre colocar uma música de fundo e permitir que uma canção participe da dramaturgia. Preciso Dizer Que Te Amo não estava ali para decorar a cena. A música parecia traduzir justamente aquilo que Mau Mau e Felipe ainda não conseguiam organizar em palavras. A escolha foi de uma precisão quase cruel. Cazuza, que compreendeu como poucos a urgência do desejo e a fragilidade de quem ama, emprestou sua poesia a dois personagens que finalmente encontravam coragem para viver o próprio sentimento. Era como se música, interpretação, roteiro e direção respirassem juntos. Nenhum elemento disputava atenção. Todos serviam à mesma emoção.

Existe, entretanto, uma contradição que não pode passar despercebida. Em pleno 2026, ainda tratamos um beijo entre dois homens como um acontecimento extraordinário. E talvez essa seja a parte mais triste de uma cena tão bonita. O amor continua precisando atravessar obstáculos que a ficção deveria ajudar a derrubar. Enquanto casais heterossexuais se beijam diariamente na televisão sem provocar maiores discussões, o encontro amoroso entre dois rapazes ainda carrega o peso de um acontecimento histórico. O que deveria ser natural continua exigindo coragem. E a televisão, que tantas vezes ajudou a reproduzir preconceitos, também tem a responsabilidade de enfrentá-los.

Mas há algo especialmente importante no que Walcyr, Claudia, os roteiristas e Amora conseguiram construir. Eles não transformaram Mau Mau e Felipe em um discurso. Não reduziram os personagens a uma bandeira ou a uma obrigação pedagógica. Permitiram que fossem simplesmente humanos. Que desejassem, hesitassem, sofressem e finalmente se encontrassem. É uma diferença fundamental. A boa dramaturgia não precisa interromper a história para explicar ao público o que ele deve pensar. Ela apresenta a vida com tamanha honestidade que a reflexão acontece naturalmente. E talvez esteja aí a maior sofisticação dessa sequência.

A televisão brasileira já produziu encontros amorosos memoráveis. Já fez o país esperar por beijos, casamentos, reencontros e despedidas. Mas existe uma espécie de arrogância contemporânea que parece considerar a delicadeza um recurso ultrapassado. Como se tudo precisasse ser mais rápido, mais barulhento, mais escandaloso. O beijo de Mau Mau e Felipe caminhou na direção contrária. Foi uma defesa silenciosa da boa dramaturgia. Daquela que confia no ator, respeita o texto, valoriza a direção e compreende que o espectador não é um idiota que precisa receber emoções mastigadas.

Walcyr Carrasco demonstrou sua extraordinária capacidade de compreender o coração humano. Claudia Souto e a equipe de texto contribuíram para a construção de uma história que encontrou sua força na delicadeza. Amora Mautner confirmou uma maturidade artística que a coloca entre os grandes nomes da direção de televisão brasileira. João Victor e Pietro entregaram verdade. E Cazuza, mesmo ausente, parecia estar ali, testemunhando tudo.

Foram minutos cruciais para a TV Globo. Não porque a emissora tenha descoberto uma nova maneira de fazer televisão, mas justamente porque recuperou aquilo que sempre soube fazer quando esteve em seus melhores momentos: contar histórias capazes de atravessar a tela e permanecer dentro de quem assiste.

O beijo de Mau Mau e Felipe não precisou de escândalo, de provocação barata ou de qualquer artifício para se tornar inesquecível. Precisou apenas de talento, inteligência e domínio da narrativa.

E talvez essa seja a grande ironia de tudo.

A Globo passou anos tentando reinventar a novela brasileira. Na sexta-feira, bastaram dois rapazes apaixonados, o trabalho de grandes profissionais e uma música de Cazuza para lembrar que a boa dramaturgia nunca precisou ser reinventada.

Precisava apenas voltar a ser respeitada.

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