Recebi o levantamento e li duas vezes, porque tem coisa que a Faria Lima não conta na mesa do almoço. O Norte, aquele que todo mundo trata como anexo do Brasil na hora de montar carteira, cresceu 3,2% ao ano nas últimas duas décadas. O dado é do estudo Economia da Região Norte, do Núcleo de Contas Nacionais do FGV IBRE, feito a partir do Sistema de Contas Regionais do IBGE.
Agora vem a parte que dói. Na taxa média do PIB entre regiões, o Norte só perde para o Centro-Oeste, com 3,23%, e passa por cima do Nordeste, com 2,34%, do Sudeste, com 1,91%, e do Sul, que ficou com a pior média nacional, 1,88%. O Sul, gente. O mesmo Sul que dá aula de produtividade em painel de evento fechou a lanterna do ranking.

A leitura de mercado é simples: a produção de bens e serviços deixou de se concentrar nos polos tradicionais. Pecuária, indústria e economia criativa empurraram uma convergência gradual entre as regiões, e o Norte deixou de ser só corredor logístico para virar produtor de ativo cultural com preço. Dos sete estados analisados, Amazonas e Pará sozinhos respondem por cerca de 65% do PIB da região. Concentração assim, no mercado, chama-se ativo dominante.
E tem a camada que quase ninguém precifica. Isabel Seixas, idealizadora do Rolé Brasil e especialista em territórios criativos, sustenta que não dá para falar em alta do PIB amazônico sem colocar cultura e patrimônio na conta, atrelados a sustentabilidade, turismo e empreendedorismo. A tese dela é que investir em educação patrimonial garante que o avanço macroeconômico chegue nas comunidades produtoras, de Rio Branco a Marabá, de Belém a Manaus, Macapá e Palmas.

Na prática, isso já tem endereço. O Perifa.Doc, parceria do Rolé Brasil com a FavelAcademy e patrocínio da Vale via Lei Federal de Incentivo à Cultura, roda Marabá e Belém usando audiovisual e educação patrimonial para que a narrativa saia de quem mora ali. Agora a capital paraense, aos 410 anos, recebe o Rolé por Belém, caminhada cultural gratuita pelo Centro Histórico. O Rolé Brasil faz isso há quatorze anos, muito antes de a COP30 colocar holofote na região.
O Norte parou de ser pauta de sustentabilidade e virou pauta de alocação. Quem chegar depois vai pagar caro pelo mesmo metro quadrado.