Eu estava em Petrópolis, instalada no Palácio Quitandinha, achando que ia ter uma tarde de serra com chá e sossego de gente fina, quando o telefone tocou. Era a Leuza, uma amiga minha que mora coladinha na mansão que a família alugou na Flórida pra Copa, com a voz já naquele tom de quem viu coisa que não devia. Larguei o chá, ajeitei o roupão e liguei o modo coluna na hora, porque babado de aliança sumida em ano de Mundial é assunto de Estado nesta casa.
O caso é o seguinte. Os jogadores que representam o Brasil foram liberados na sexta, dia vinte e seis, e o camisa dez aproveitou o dia inteirinho. De manhã ele apareceu no escritório de uma grife italiana de relógios, e na foto que a própria marca publicou dá pra ver a aliança bem no lugar, comportadíssima. À noite ele trocou o compromisso pela pista de Nova York, e numa imagem que o DJ fez questão de postar o dedo já estava livre, leve e solto.
Agora deixa eu contextualizar pra criançada que chegou agora no folhetim. Esse casal assumiu o namoro no comecinho de dois mil e vinte e dois e desde então me deu mais reviravolta que novela das nove, com direito a separação e a uma traição que veio à tona em dois mil e vinte e três, bem no meio da gravidez da Mavie. Eles reataram, oficializaram tudo no civil, passaram a usar aliança personalizada desde abril do ano passado, e agora a Biancardi está grávida da terceira menina, que será a quinta cria do moço.
E enquanto o anel fazia esse vaivém entre o relógio italiano e a balada americana, a futura mamãe estava em Miami cuidando das filhas, na tal mansão da Flórida onde a família se hospedou pra Copa. Repara na geografia do enredo, meu bem, porque ela diz muito. A grife registrou a aliança no lugar, o DJ registrou a ausência dela, e eu fiquei aqui na serra juntando as duas fotos como quem monta quebra-cabeça de fim de semana.
Pode ser o calor de Nova York, pode ser distração de quem saiu da concentração com gás de adolescente. Eu, que já vi muito dedo de jogador esquecer a aliança no hotel e lembrar dela bem na hora da foto oficial, só registro o movimento e mantenho a gavetinha bem abastecida. Petrópolis é fria, mas a minha memória é quentíssima, e essa cena aqui não vai sair dela tão cedo.