Eu lembro da primeira vez em que a Cavaleiros do Forró chorou de verdade. Não foi em música, não foi em DVD, não foi em palco lotado de São João. Foi na estrada. Era madrugada de volta pra casa, aquele cansaço de quem já tirou sorriso de público, fez casal se beijar na pista e transformou suor em aplauso. E, de repente, o que era só mais uma viagem vira manchete: ônibus, colisão, vidas interrompidas. A banda, que até então só sabia falar de amor, forró e festa, conhece o peso de um luto coletivo. Eu, do lado de cá, aprendi que estrada de banda também é linha tênue entre o show de ontem e a saudade de amanhã.
Desde aquele dia, a Cavaleiros do Forró nunca mais foi só cifra, acorde e sanfona. Ganhou um fantasma discreto, um silêncio que às vezes entra no meio da música. Todo fã que estava lá, todo jornalista que cobriu a notícia, sabe exatamente a sensação de acordar com a informação de que um dos seus tinha ficado pelo caminho. E eu estava lá, com meu bloquinho, meu salto alto e aquela vontade de transformar dor em texto que não desrespeita quem ficou.
Aí veio ela.

A voz feminina que grudou na pele, que fez uma geração inteira cantar refrão com força, que colocou mulher no centro do palco de um forró acostumado a ver os homens na linha de frente. Meu bem, quem viveu a fase de ouro da Cavaleiros do Forró com aquela cantora potente sabe do que estou falando. Ela não era apenas uma vocalista; era ponto de luz em DVD, figurino, cabelo, presença. Quando a carreira mudou de rota, quando ela saiu da banda para tentar outra vida, parecia só mais uma virada de capítulo. Mas o destino, que anda com má vontade com esse grupo, decidiu escrever de novo com tinta escura: um carro que não chega onde deveria, um ônibus, uma cidade que recebe notícia em vez de show. A mesma sensação me atravessou: a de que, nessa história, o microfone às vezes é desligado no meio da música.
E o Brasil inteiro descobriu, anos depois, que essas tragédias não eram exclusivas do nicho. Foi quando um certo cantor, com um hit chiclete grudado em todas as playlists, virou notícia no mundo todo por causa de um avião que também não completou trajeto. Aquele nome que estava no topo das paradas, que tinha coreografia em festa de casamento e dancinha em story de influenciador, de repente estava na mesma lista sombria de perdas ligadas à Cavaleiros do Forró. A “maldição” da banda ganhou horário nobre, debate em programa de TV, vídeo longo em redes sociais, gente comparando acidentes, falando em sina, azar, como se a estrada e o céu fossem entidades vingativas.
Eu, Kátia Flávia, olhei para aquilo com um misto de déjà-vu e exaustão. Não era a primeira vez. Não parecia que seria a última.
Até que chegou Neto.
Neto Araújo, essa voz que atravessou fases, que entrou na Cavaleiros do Forró carregando a responsabilidade de cantar depois de luto, que botou a cara em DVD, em turnê, em cidade de interior e capital. Ele viveu aquela vida de estrada que só quem já puxou mala em aeroporto de madrugada e entrou em van na chuva sabe como funciona: show, hotel, viagem, fila, palco, mais show. Em outro momento, seguiu para outra banda, outro projeto, outra fase da carreira. Mas, para quem acompanha essa novela macabra do destino da Cavaleiros do Forró, ele nunca deixou de ser parte do elenco.
Quando o meu celular acendeu com o nome dele, eu estava contando horas para ver Brasil e Noruega, pensando em esquema tático, escalação, temperatura no estádio. No lugar da análise de ataque e defesa, me veio mais uma defesa que não funcionou: a da vida. Neto, 42 anos, mais uma vez a notícia não é música nova. É fim de história. É corpo encontrado. É causa da morte virando suspeita, depois informação, depois discussão. E, no meu peito, a mesma pergunta que me acompanha desde aquela primeira madrugada de ônibus: quantas vozes o forró ainda vai perder desse jeito?
A Cavaleiros do Forró virou, sem querer, uma banda com trilha sonora de lutos. Não porque alguém escreveu um roteiro de terror, não porque há uma entidade maligna pairando sobre o grupo, mas porque a realidade de quem vive de música no Brasil muitas vezes é isso: estrada perigosa, trânsito insano, avião que corta céu em rotas apertadas, rotina cardiológica ignorada, sono que não fecha ciclo, corpo que é empurrado aos limites em nome do show que não pode parar. O público vê luz, fumaça, pirotecnia; do lado de cá, eu vejo gente tentando conciliar família, coração, agenda, saúde, enquanto roda o país com sorriso no rosto e cansaço acumulado no resto.
Quando chamam a Cavaleiros do Forró de banda “azarada”, eu entendo o impulso, mas discordo do rótulo fácil. Azar é pouco. O que existe ali é uma combinação cruel de fatores que atravessam todo o universo do forró e da música popular brasileira: logística precária, deslocamentos arriscados, estruturas improvisadas, uma cultura de romantizar a fadiga e normalizar a exaustão. No meio disso, alguns nomes viram estatística. Mas, para mim, eles nunca serão estatística. São pessoas que eu vi subir em palco, que eu ouvi em caixa de som, que eu vi emocionarem fãs que viajaram horas para cantar junto.
Inácio, Eliza, Gabriel, Neto. Quatro histórias diferentes, quatro trajetórias, quatro timbres, quatro formas de ocupar palco e estúdio. O que os une não é “maldição”. É um país que trata a estrada como se fosse extensão da roleta russa, o avião como se fosse ônibus com asas, o coração de artistas como se fosse motor infalível que aguenta qualquer carga. Gente de carne e osso não aguenta tudo. E o preço, às vezes, são essas manchetes que me atravessam no meio do caminho, que atravessam você no meio do dia, que atravessam famílias no meio da vida.
Eu, Kátia, escrevo essa cronologia com a consciência de que não estou falando apenas de números ou datas. Estou falando de fãs que nunca mais vão ver aquele show, de filhos que crescem com foto em porta-retrato, de colegas de banda que aprendem a seguir viagem com um lugar vazio na van. Estou falando de uma cena inteira do forró eletrônico que aprende a conviver com o luto como parte do repertório.

Enquanto ajeito minha bandeira verde e amarela para o jogo Brasil e Noruega, eu penso que a torcida que importa, no fundo, não é só por gol e classificação. É por estrada segura, por transporte digno, por agendas replanejadas, por check-up em dia, por vidas que não sejam reduzidas a notas de falecimento. E, sim, é por cada voz que já se calou cedo demais – e por todas as outras que, eu espero, ainda tenham muito chão e muito palco pela frente.
Porque, se tem uma coisa que essa dolorosa cronologia das tragédias no forró me ensinou, é que o show não pode continuar a qualquer custo. E que, toda vez que um nome como o de Neto Araújo pisca no meu telefone em tom de despedida, o mínimo que eu, Kátia Flávia, posso fazer é escrever para que ele seja lembrado como história completa, não apenas como mais um capítulo triste na contabilidade cruel das perdas da Cavaleiros do Forró.