Tem notícia que chega fazendo barulho. Essa chegou me fazendo parar. Porque uma coisa é falar de memória. Outra é perceber quantas histórias brasileiras correm o risco de desaparecer quando ninguém guarda documento, fotografia, relato, registro. E foi exatamente para mexer nesse arquivo que o Grupo Arco-Íris colocou no ar o Museu Movimento LGBTI+, o MUMO LGBTI+.
O museu é 100% digital e reúne parte da história das lutas, da produção cultural e das conquistas da população LGBTI+ no Brasil. O acervo começou a ser estruturado a partir do material do próprio Grupo Arco-Íris e de doações feitas por ativistas. Pesquisadores do Grupo de Pesquisa Museologia Experimental e Imagem, do curso de Museologia da UNIRIO, participaram voluntariamente do trabalho técnico de classificação.
E aqui está o ponto que mais me pegou: não é memória trancada numa sala esperando alguém aparecer. O acervo é aberto. Documento, narrativa oral, produção artística e registros dos movimentos sociais passam a ficar disponíveis para consulta pública pela internet. História acessível. Do jeito que precisa ser.
O MUMO começou a ser desenvolvido em 2019, a partir do Projeto Centro de Documentação da Memória LGBTI+, e cresceu até se transformar em um programa de museologia social, comunitária e temática. A proposta combina acervos digitais e físicos, exposições, ações educativas, pesquisa e produção de conhecimento sobre a trajetória do movimento no país.

Cláudio Nascimento, presidente do Grupo Arco-Íris e diretor de políticas públicas da Aliança Nacional LGBTI, resume a razão de existir do projeto: “Preservar a memória LGBTI+ é um ato profundamente político e democrático.” Segundo ele, o museu pretende impedir que narrativas, lutas e conquistas sejam apagadas ou marginalizadas da história oficial brasileira.
E é aí que esse lançamento deixa de ser apenas sobre um museu. Guardar memória também é disputar o esquecimento. Porque direitos que hoje parecem parte da paisagem tiveram gente antes brigando para que existissem. Se ninguém registra quem lutou, o Brasil corre o risco de lembrar da conquista e esquecer de quem pagou a conta para ela chegar.