Estava terminando o almoço numa trattoria aqui em Bari quando a Fernanda, minha amiga de Brasília, me ligou em pânico. “Kátia, você está sentada?” Eu estava. Ainda bem. Porque o que ela me contou me fez largar o garfo no meio do risotto e ficar parada, olhando pro nada, sem conseguir processar.
Uma mulher de 37 anos entrou na UTI do Hospital Santa Marta, em Taguatinga, para visitar o companheiro de 61 anos internado. E colocou veneno na boca dele. Na boca. De um homem num leito de UTI. Eu precisei pedir pra Fernanda repetir. Duas vezes. A equipe médica percebeu que algo estava errado porque os sinais do paciente não batiam com o quadro clínico. Encontraram a substância. Chamaram a polícia. A última visita tinha sido dela.

Desliguei o telefone e fiquei um tempo olhando pro mar daqui. Liguei pra Cláudia. Liguei pra Renata. As duas reagiram igual a mim: silêncio, depois um “como assim?”. A mulher foi até a casa dela, confessou tudo à polícia, disse que tinha comprado o veneno no dia anterior e levado escondido na bolsa. A bolsa. Que ainda estava no hospital quando a prenderam.
A motivação declarada foi uma suposta tentativa de estupro contra a filha dela. A Polícia Civil vai investigar. A Justiça vai julgar. Não estou aqui para condenar nem para absolver. Mas uma coisa eu não consigo tirar da cabeça: esse homem estava num leito de UTI. Vulnerável. Dependente de máquinas e da boa vontade de quem chegasse perto. E foi justamente ali que quase morreu de vez.
O hospital confirmou que ele segue sob cuidados médicos. A prisão da mulher foi convertida em preventiva nesta quarta-feira. Eu ainda não terminei o risotto.