Está chovendo no Rio de Janeiro. O vento está batendo com uma força danada nas árvores do Cosme Velho, as janelas aqui de casa estão fazendo aquele barulho que me obriga a levantar de cinco em cinco minutos e o domingo, que já amanheceu cinza, acabou de ficar um pouco mais triste.
Roney Facchini morreu aos 73 anos.
E essa é daquelas notícias que imediatamente puxam uma gaveta da memória. Porque talvez muita gente não reconheça o nome de primeira, mas basta dizer o patriarca da família Silva, de Rá-Tim-Bum, para uma geração inteira enxergar aquele rosto.
Roney interpretava Luís da Silva na produção infantil da TV Cultura, exibida entre 1990 e 1994. Era o pai daquela família que vivia dentro dos quadros e dividia cena com Grace Gianoukas, João Victor d’Alves e Pamella Domingues. Televisão infantil de uma época em que personagem entrava na nossa casa e, sem a gente perceber, ficava por décadas.
A morte foi anunciada pelo perfil do Prêmio Bibi Ferreira e confirmada pelo ator Nilton Bicudo, que trabalhou com Facchini no teatro. A causa da morte não foi divulgada.
Bicudo publicou uma despedida especialmente forte. Contou que os dois haviam trocado áudios na terça-feira anterior à morte e lembrou Roney como um homem carinhoso, generoso e de humor sutil. Terminou dizendo que, se existir um além, gostaria de encontrá-lo novamente.
E Roney foi muito maior do que aquele pai que ficou guardado na memória de quem cresceu assistindo à Cultura. Trabalhou em novelas como As Pupilas do Senhor Reitor, Roda da Vida e Caras & Bocas, além de participações em Pérola Negra, Bang Bang, Cheias de Charme e Malhação.
Também passou por séries como Ô… Coitado!, Meu Cunhado, A Diarista, Minha Nada Mole Vida, S.O.S. Emergência, Separação?! e Pé na Cova. Em Macho Man, da Globo, viveu Fréderics, dono do salão em torno do qual girava a comédia.
É uma carreira que atravessou emissoras, formatos e gerações sem precisar fazer barulho para existir. Teatro, televisão, comédia, dramaturgia infantil, direção. Roney foi desses atores que talvez o público nem sempre soubesse o nome completo, mas reconhecia imediatamente quando aparecia na tela.
E talvez exista uma crueldade particular nisso: a gente só percebe quantas vezes alguém esteve na nossa vida quando recebe a notícia de que essa pessoa foi embora.
Hoje não cabe deboche.
Aqui no Cosme Velho continua ventando, a chuva continua batendo na janela e eu fiquei pensando naquela família dentro dos quadros de Rá-Tim-Bum. Algumas imagens da televisão envelhecem. Outras viram infância.
Roney Facchini virou infância.