A tarde de terça aqui no Cosme Velho estava parada, a televisão ligada no volume de sempre, quando a notícia do Guto Graça Mello tomou conta da tela. Produtor musical de uma geração inteira de brasileiros, Guto morreu hoje, aos 78 anos, vítima de parada cardiorrespiratória. Ele estava internado há mais de um mês no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca, para onde havia sido levado após sofrer uma queda.
Nascido Augusto César Graça Mello em 29 de abril de 1948, no Rio de Janeiro, ele veio de uma família de pioneiros: seu pai e sua mãe, Octávio e Stella Graça Mello, eram figuras do rádio e da televisão brasileira. O menino tentou a Arquitetura na UFRJ, mas a música falou mais alto, ele largou o curso, estudou violão, foi até o México com o conjunto Vox Populi e voltou diferente. Em 1972, Walter Clark, então diretor-geral da Globo, assistiu ao filme Missão: Matar com trilha do Guto e o chamou para trabalhar na emissora, e a partir daí foi história.
Na Globo, Guto Graça Mello construiu o que talvez seja o catálogo mais afetivo da televisão brasileira. Pelo som das novelas que ele cuidou passaram Gabriela, Pecado Capital, Saramandaia e Pai Herói, entre muitas outras. E foi ele quem compôs o tema de abertura do Fantástico, aquela música que a emissora usa até hoje, décadas depois, como se o tempo não tivesse passado. Também trabalhou com o selo Som Livre na produção dos discos de trilhas sonoras que viraram objeto de desejo em qualquer casa que tivesse um toca-discos.
Depois de se afastar da televisão em 1989, Guto atravessou a indústria fonográfica de ponta a ponta, produzindo artistas como Maria Bethânia, Roberto Carlos, Rita Lee e Xuxa Meneghel. Nos anos 2000, voltou à televisão como jurado do reality musical Fama, nas temporadas de 2002 a 2005, programa que revelou Thiaguinho e Evelyn Castro para o país.
Guto Graça Mello deixa a viúva, a atriz Sylvia Massari, conhecida pelo personagem Maria Santa em A Praça É Nossa, além de duas filhas e dois enteados. O Brasil perde hoje um homem que trabalhou a vida inteira para que a televisão brasileira soasse como ela soa, sem que quase ninguém soubesse o nome de quem estava por trás disso.