Eu estava terminando o jantar em Ipanema quando o telefone tocou. A pessoa do outro lado, ligada ao meio artístico australiano, confirmou o que eu ainda não queria acreditar: Sam Neill havia partido cercado pela família, no Hospital Particular St Vincent’s, em Sydney. A nota divulgada pelos parentes fala em dignidade até o último momento, e pede privacidade para o luto.
O contraste dói. Neill enfrentou por cinco anos um linfoma agressivo, diagnosticado em estágio três, e chegou a escrever sobre a possibilidade real de morrer ainda durante o tratamento. Em abril deste ano ele anunciou, emocionado, que os exames não indicavam mais sinais da doença. A família fez questão de destacar esse alívio na mesma nota em que comunicou a morte, chamando o desfecho de repentino e inesperado.

A carreira de Neill atravessa mais de cinco décadas e resiste ao tempo com uma naturalidade rara. Ele nasceu na Irlanda do Norte, cresceu na Nova Zelândia e construiu um caminho que passou por Um Grito no Escuro, O Piano ao lado de Jane Campion, e claro, o papel que o eternizou: o paleontólogo cético de Jurassic Park, que ele reprisou em 2001 e novamente em 2022. Na televisão, ficou marcado como o inspetor Chester Campbell em Peaky Blinders.

O primeiro-ministro da Nova Zelândia, Christopher Luxon, lamentou publicamente a perda, e não é para menos. Neill levou histórias neozelandesas para o mundo inteiro numa época em que praticamente não existia indústria cinematográfica no país. Fica o paleontólogo, fica o piano, fica Peaky Blinders, e fica a saudade de quem viu nele um dos grandes.