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Kátia Flávia
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“Me dê essa vaga”: Cleitinho implora candidatura ao governo e deixa caciques em pane

Senador fez apelo emocionado para disputar o governo de Minas, invocou luto, Espírito Santo, caminhoneiros e enfermagem, enquanto a plateia explodia e a mesa diretora parecia tentar entender o terremoto ao vivo.

Kátia Flávia

04/08/2026 12h30

Cleitinho pediu publicamente a vaga para disputar o governo de Minas Gerais durante ato político

Cleitinho pediu publicamente a vaga para disputar o governo de Minas Gerais durante ato político

Cleitinho transformou um ato político em cena de novela religiosa, com direito a apelo público, discurso sobre luto, pedido a Deus e súplica por uma vaga para disputar o governo de Minas Gerais. Diante da plateia e da cúpula partidária, ele afirmou que quer ser candidato a governador e pediu “humildemente” que o partido lhe conceda o espaço.

Eu estava no quarto do hotel em Ibiza, já de banho tomado, enrolada num robe branco que não combina com a quantidade de areia que eu trouxe de Cala Comte, quando esse vídeo começou a rodar. Eu tinha acabado de abrir uma garrafinha de água mineral do frigobar e quase usei para benzer a tela, porque Cleitinho entrou em modo púlpito, convenção e grupo de família ao mesmo tempo.

O senador começou dizendo que precisava falar “com toda humildade” porque o Espírito Santo estaria pedindo aquilo. Em seguida, contou que vem atravessando um momento de luto há 15 dias e que, ao decidir a situação entre domingo e segunda, estava vulnerável e espiritualmente abalado.

A plateia, nesse começo, ficou em silêncio absoluto. Todo mundo de celular levantado, olhando fixo, como quem pressente que alguma coisa grande, desconfortável ou extremamente compartilhável está prestes a acontecer. E aconteceu.

“Eu quero ser candidato a governador e eu peço aqui humildemente a Deus e a você, que me dê essa vaga. Me dê essa vaga”, declarou Cleitinho. Nessa hora, o auditório explodiu. Aplausos, gritos, euforia, aquela energia de torcida que descobre gol no telão com três segundos de atraso.

Eu pausei o vídeo justamente aí, porque o ouro não estava só no anúncio. Estava no fundo. A plateia parecia em culto de libertação política. A mesa diretora, minhas queridas, parecia ter recebido boleto em nome do partido. Um olhava para o outro, outro ajeitava a postura, uma mulher de blazer verde bebia água com a serenidade de quem pensa: “eu só vim compor a mesa”.

Cleitinho continuou no tom de apelo. Disse que não decepcionaria o partido nem o presidente, prometeu aumentar a bancada mineira, valorizar deputados estaduais, federais, vereadores, prefeitos e, principalmente, “o povo mineiro”. Também citou o pai, o irmão, a mãe, professor, Polícia Militar, trabalhadores, caminhoneiros e enfermagem. Faltou chamar o porteiro do prédio e a moça do pão de queijo, mas foi por pouco.

“Quem que nunca foi e voltou? Quem que nunca teve equívoco? Quem que nunca errou, que levante a mão, por favor. Que levante a mão”, perguntou ele, num daqueles momentos em que o político transforma recuo em parábola e tenta fazer da própria mudança de rota uma experiência coletiva de fé.

Eu estava passando hidratante na perna e tive que parar, porque essa frase é uma obra-prima da política brasileira. “Quem nunca foi e voltou?” serve para candidatura, ex-namorado, dieta, academia, promessa de não mandar mensagem e também para aquele vestido caríssimo que você jura que vai devolver e fica com ele mesmo.

Enquanto Cleitinho suava, gesticulava, apontava para si, para a mesa e para o público, a reação dos dirigentes atrás dele era um espetáculo paralelo. Tinha aceno de cabeça com cara de “agora já foi”, olhar sério de quem calculava o dano, postura travada de quem percebeu que o pedido virou fato político antes de virar decisão interna.

O contraste é o que torna a cena impagável. Na frente, um candidato em transe emocional pedindo a vaga “do fundo do coração”. No auditório, uma plateia vibrando como se já estivesse em campanha. Ao fundo, caciques tentando sorrir com a alma fora do corpo. Política mineira, quando quer, entrega teatro, missa e reunião de condomínio no mesmo pacote.

Cleitinho terminou dizendo que vai pedir ao Espírito Santo para conduzi-lo e que acredita que o povo vai carregá-lo em Minas Gerais, porque “40% do povo” o quer. Eu fechei o hidratante nessa hora e pensei: ele pode até não ter recebido a vaga ali, mas recebeu o que queria primeiro, a cena. E, em política, às vezes a cena chega antes da bênção.

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