Gente, eu estou aqui na minha casa, as meninas chegando pro jogo, a comida posta na mesa, e a minha cabeça não desgruda do que rolou ontem no Anhembi. Liguei pro Mauro Sousa hoje de manhã chorando no telefone, juro, chorando feito criança, porque aquele desfile dos 90 anos do pai dele mexeu comigo de um jeito que eu nem sabia explicar. O Mauro, emocionado do outro lado da linha, me contou bastidor por bastidor e eu desliguei ainda mais derretida.
Vou contar pra vocês como foi. Neste domingo, 28, o Sambódromo do Anhembi trocou o Carnaval pela obra do Maurício a céu aberto, com 30 mil pessoas entre crianças, pais, avós e fãs de várias gerações na arquibancada. O Desfile Maurício 90 juntou mais de 800 profissionais em cinco momentos, com carros alegóricos monumentais, trilha sonora original, esculturas gigantes e personagens que ganharam vida na avenida. Crianças, pais e avós no mesmo bloco, exatamente o Brasil que ele desenhou a vida inteira.
A festa abriu com o carro “Eu tive uma ideia”, levando o público pro menino de Mogi das Cruzes que largou tudo pra construir a vida em São Paulo, passou pelos anos de repórter policial e chegou ao reconhecimento nacional. Teve ala das memórias com a avó, ala dos “sins” e “nãos” que ele ouviu na carreira inteira, e o carro da Turma da Mônica com quatro pavimentos, árvores giratórias e um Sansão enorme dominando a estrutura. Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão, a turma do Limoeiro toda brincando com o público, mais um carro futurista mostrando a Mônica Toy e a Turma da Mônica Jovem.

O carro que fechou tudo foi dedicado aos 90 anos. Vestido de branco e num trono, como rei do universo que ele mesmo inventou, o Maurício percorreu a avenida ao lado da esposa Alice, dos filhos, netos e bisnetos, acenando enquanto a arquibancada gritava o nome dele. Quando o carro passou, uma explosão de fitilhos coloridos cobriu o Sambódromo e o público foi convidado a descer e caminhar atrás da última alegoria. Em minutos a avenida virou um único bloco dançando, e foi aí que eu chorei de novo, sem vergonha nenhuma.
O Mauro me disse uma frase que eu vou guardar: o pai passou a vida desenhando o Brasil e agora o Brasil veio desenhá-lo de volta. A Marina, filha do artista, falou da emoção de ver os traços que nasceram na prancheta do pai ocupando a avenida em cores e num tamanho que página de gibi nenhuma comporta. Pois é, meus amores, o homem que ensinou metade do país a ler virou patrimônio cultural imaterial de São Paulo, ganhou banco de bronze na Avenida Paulista, infláveis gigantes e 91 esculturas espalhadas pela cidade. Tem coisa mais linda do que ver um senhor de 90 anos sendo carregado de amor pela mesma gente que ele alfabetizou no quadrinho? Eu não tenho.