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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Martinho da Vila será o grande homenageado do Prêmio da Música Brasileira em 2027

Aos 88 anos, sambista será o fio condutor da 34ª edição da premiação, que também anuncia Artista do Ano e transforma o forró em categoria própria

Kátia Flávia

08/09/2026 15h34

Martinho da Vila será o grande homenageado da 34ª edição do Prêmio da Música Brasileira, marcada para 2027, com sua obra como fio condutor do espetáculo.

Martinho da Vila será o grande homenageado da 34ª edição do Prêmio da Música Brasileira, marcada para 2027, com sua obra como fio condutor do espetáculo.

Eu estava no Cosme Velho naquele momento perigoso da tarde em que a pessoa pensa seriamente se toma outro café ou se aceita que já trabalhou o suficiente, quando chegou a notícia. E aí não teve café, não teve descanso, não teve absolutamente nada: Martinho da Vila será o grande homenageado do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira em 2027.

E tem notícia que não pede escândalo, meu amor. Pede respeito. Porque estamos falando de um homem que ajudou a contar o Brasil cantando.

A escolha foi feita pelo Conselho do Prêmio, numa reunião que juntou Criolo, Karol Conká, Zé Maurício Machline, Ney Matogrosso, Emicida, Arnaldo Antunes e Antônio Carlos Miguel. Depois da conversa, fizeram uma chamada conjunta com Martinho para comunicar a decisão. Ele aceitou prontamente.

Ou seja: não foi uma escolha protocolar para preencher a homenagem da próxima edição. Há uma ideia muito clara por trás dela. A obra de Martinho será o fio condutor de todo o espetáculo da 34ª edição, com artistas de diferentes gerações e vertentes revisitando seu repertório.

E repertório, convenhamos, é coisa que não falta.

A projeção nacional começou ainda em 1967, no III Festival da Record, com “Menina Moça”. No ano seguinte veio “Casa de Bamba”, e em 1969 o primeiro álbum, Martinho da Vila, já trazia músicas como “O Pequeno Burguês”, “Quem é do Mar Não Enjoa” e “Pra Que Dinheiro”.

Depois disso, Martinho fez aquilo que poucos artistas conseguem fazer: deixou de pertencer a uma época.

Ele atravessou décadas.

Em 1995, tornou-se o segundo sambista brasileiro a ultrapassar um milhão de cópias vendidas, com Tá Delícia, Tá Gostoso. Levou o samba brasileiro para fora do país, construiu pontes com a música africana e com países de língua portuguesa e fez uma obra que nunca precisou abandonar suas raízes para se tornar internacional.

É justamente aí que essa homenagem fica interessante.

Porque falar de Martinho da Vila apenas como “um grande sambista” é diminuir o tamanho da história. Tem a Vila Isabel, tem ancestralidade, literatura, pesquisa, cultura popular, relações com a África, composição, interpretação e uma maneira muito particular de transformar acontecimentos brasileiros em música.

E os números dentro do próprio prêmio ajudam a explicar a escolha: entre 1988 e 2024, Martinho acumulou 13 troféus no Prêmio da Música Brasileira, em categorias que passaram por álbum, cantor e canção de samba, além de trabalhos audiovisuais, infantis e outros projetos.

Eu fiquei pensando nisso enquanto olhava pela janela aqui de casa: existe uma diferença enorme entre ter sucessos e construir patrimônio cultural. Sucesso depende de uma época. Patrimônio sobrevive a ela. Martinho chegou ao segundo grupo faz tempo.

Mas a edição de 2027 não terá apenas a homenagem.

O prêmio também vai mexer em sua própria estrutura. O forró passa a ocupar uma área própria, seguindo a dinâmica dos demais gêneros, com indicações definidas pelo júri e troféu de lançamento. É um reconhecimento importante para um gênero que há décadas ocupa posição central na música brasileira e que agora ganha espaço específico dentro da premiação.

Outra novidade é a criação do prêmio de Artista do Ano. Os nomes mais votados em cada gênero formarão uma lista única, que será avaliada por todos os jurados até chegar aos cinco indicados.

Também haverá mudança no Projeto Audiovisual, que passará a contemplar exclusivamente videoclipes e álbuns visuais, avaliados por critérios como criatividade, inovação e qualidade de execução técnica.

No fim das contas, achei bastante simbólico: o Prêmio da Música Brasileira prepara mudanças para olhar o futuro justamente escolhendo como centro da festa um homem que passou quase seis décadas provando que tradição não significa ficar parado.

Martinho da Vila será homenageado em 2027 porque pertence à história do samba. Mas talvez a homenagem seja ainda maior porque, aos 88 anos, ele continua pertencendo ao presente.

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