Marjorie Estiano abriu o jogo sobre a decisão de não ser mãe e relacionou essa escolha à convivência difícil que teve dentro de casa. Em entrevista ao podcast “Isso Não É uma Sessão de Análise”, a atriz falou com franqueza sobre família, afetos, psicoterapia e os mecanismos de defesa que construiu ao longo da vida.
Eu já estava correndo para um compromisso no Jardim Botânico, uma conversa marcada no La Bicyclette com uma fonte que jurava ter bastidor quente de novela e, conhecendo fonte de novela, isso pode significar desde troca de autor até briga por camarim. Saí com o óculos escuro na cara, celular na mão e motorista avisado para não inventar caminho “mais rápido” pelo Rio. No meio dessa pequena operação de guerra, caiu Marjorie Estiano falando sobre maternidade. E quando Marjorie fala sério, sem firula e sem assessoria tentando adoçar a frase, a gente desacelera até no trânsito.

A atriz de “Quem Ama Cuida” contou que a relação com a mãe teve peso direto na forma como passou a enxergar a maternidade. Segundo ela, a ideia de não ter filhos surgiu como uma reação a um ambiente familiar marcado por conflitos.
“Acho que talvez por ter esse ambiente mais bélico com a minha mãe, eu falei: ‘Não quero ter filhos. Não é bom isso, isso não é legal, não quero ter’”, afirmou.
Marjorie também disse que, com o tempo e a psicoterapia, passou a entender melhor essa postura. A atriz explicou que sua maneira prática e objetiva de lidar com relações afetivas funcionava como uma defesa contra desejos que ela própria não sabia como elaborar.
“Depois fui entendendo com a [minha psicóloga] Beatriz, porque acho que a análise é um processo de autorreflexão e de autoconhecimento que deveria estar junto do português e da matemática. É básico, você precisa, talvez seja mais importante até do que isso. Você precisa se conhecer para conseguir viver em sociedade, na sua plenitude, no seu lugar potente de comunicação e de entendimento”, avaliou.
A atriz de “Quem Ama Cuida” também afirmou que rejeitava o romantismo e relações mais afetivas justamente por não saber como ocupar esse lugar. “Mas acho que o caminho que fiz foi um pouco esse da rejeição. Inclusive, rejeitava o romantismo e tudo que fosse mais amoroso e afetivo nas minhas relações. Sou uma mulher prática, objetiva: não quero ter filhos, não quero ter descendentes. Depois que fui entendendo que isso é uma defesa, porque queria e desejava muito esse lugar [romântico], mas não sabia muito como, então não é para mim”, disse.
Marjorie ainda criticou a forma como a sociedade costuma tratar o núcleo familiar como sinônimo automático de amor incondicional. Para ela, a família pode concentrar vícios, projeções antigas e conflitos difíceis de atualizar.

“O núcleo familiar tem muitos vícios de infância, de outras fases e projeções que são difíceis de atualizar. O núcleo familiar, para mim, é um caixa de pandora, fico tentando entender, porque está envolta sempre em uma roupinha de uma moralidade, de amor incondicional, e acho que é o núcleo mais hardcore que tem”, afirmou.
Eu cheguei ao Jardim Botânico com essa entrevista na cabeça, porque Marjorie Estiano tocou num nervo que muita gente prefere esconder debaixo da toalha bordada da família feliz. Nem toda mulher quer ser mãe, nem toda casa foi abrigo, nem toda recusa nasce de frieza. Às vezes, é só uma pessoa olhando para a própria história e dizendo: daqui pra frente, eu escolho outro caminho.