Mara Damasceno aprendeu cedo que algumas coisas simplesmente não cabem dentro do silêncio. Antes de se tornar uma advogada conhecida nacionalmente por defender os direitos dos homens, ela já enfrentava dificuldade de aceitar aquilo que considera injusto, uma característica que ajudaria a definir sua carreira.
“Escolhi o Direito porque queria ter voz e, principalmente, ter instrumentos para defender quem estivesse sendo injustiçado”, conta.
Nascida em Altamira, no Pará, Mara se formou em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA) em 2009 e começou a advogar em 2011. Naquele momento, não imaginava que sua carreira ganharia uma marca tão específica. O caminho começou a ser traçado nos casos que começaram a chegar ao escritório, com pais afastados dos filhos, disputas familiares, situações de alienação parental e homens acusados de crimes que, segundo ela, chegavam sem saber sequer como reagir.
Segundo a advogada não houve um caso específico que provocou a mudança. Foram vários. “E comecei a perceber uma coisa que me incomodou profundamente. Antes mesmo de qualquer julgamento, muitos (homens) já estavam socialmente condenados”, relembra.
A partir daí, Mara passou a falar sobre uma parcela do debate jurídico que considera negligenciada, a possibilidade de homens também serem vítimas de injustiças. E decidiu não esconder o nome da causa para torná-la mais palatável.
“Muita gente dizia: ‘Não fale direitos dos homens. Fale direito das famílias. Fica mais bonito e é menos polêmico’. Mas eu não quero deixar a pauta mais bonita para que ela seja aceita”, reforça.
A escolha profissional trouxe críticas e rótulos, mas também colocou a advogada diante de uma contradição que considera reveladora. Uma mulher defendendo homens passou a ser, para alguns, motivo suficiente para questionar sua legitimidade. “A crítica que mais escuto é: ‘Como uma mulher pode defender homens?’ E eu devolvo com outra pergunta: por que uma mulher não poderia defender um homem injustiçado?”, questiona.

É no território das relações familiares que sua atuação encontra algumas de suas questões mais delicadas. Mara questiona o que considera uso indevido de acusações, medidas judiciais e disputas de guarda em separações conflituosas. Para ela, o Judiciário precisa proteger vítimas, mas não pode se transformar em instrumento de vingança.
“Uma separação mal resolvida pode transformar o sistema de Justiça em extensão de uma guerra emocional. Eu já vi filhos serem utilizados como instrumentos de vingança. Já vi acusações surgirem dentro de disputas de guarda. Já vi pais desesperados porque perderam o convívio com os filhos. O problema começa quando uma disputa afetiva deixa de ser resolvida no campo pessoal e alguém percebe que pode utilizar instrumentos jurídicos para atingir o outro”, afirma.
A defesa da presunção de inocência é um dos pilares desse discurso. Mara sustenta que proteger mulheres vítimas de violência e garantir o direito de defesa de homens acusados não são ideias incompatíveis. “Uma denúncia verdadeira precisa ser investigada com rigor. Uma falsa acusação também”, pontua.
Mas talvez seja quando deixa o vocabulário jurídico que Mara revela a dimensão mais pessoal de sua atuação. Nos homens que chegam ao escritório, ela diz encontrar não apenas problemas processuais, mas pessoas emocionalmente desestruturadas. Pais que deixaram de ver os filhos, homens que perderam relações, amigos e oportunidades profissionais depois de uma acusação.
A advogada conta que também vê a vergonha estampa em muitos rostos. “A sociedade ensinou o homem a suportar tudo calado. O homem tem medo, sofre, entra em depressão, sente falta dos filhos, sofre violência psicológica, é manipulado, humilhado. Só que muitas vezes ele não se reconhece como vítima e tem vergonha de pedir ajuda”, afirma.
Situações como essas mostram por que a discussão sobre masculinidade se tornou parte do trabalho de Mara. Ela acredita que homens também precisam de espaço para reconhecer medo, sofrimento e vulnerabilidade sem serem ridicularizados: “Eu recebo homens no escritório completamente destruídos emocionalmente e que continuam dizendo: ‘Doutora, eu preciso ser forte’. Quem decidiu que homem não pode sofrer?”
Para ela, existe uma crise da masculinidade que acompanha as transformações sociais das últimas décadas. Se a sociedade discutiu amplamente o novo papel da mulher, Mara defende que faltou uma conversa equivalente sobre o que se espera dos homens em uma realidade que também mudou.
Ainda segundo a jurista, essa falta de comunicação resultou em uma geração de homens que ouvem muito sobre aquilo que não devem ser, mas pouco sobre aquilo que podem construir.
Foi a partir desse contexto que nasceu sua ideia de justiça nas relações. De acordo com Mara, não se trata de escolher um lado, mas de impedir que o gênero determine previamente quem será ouvido, protegido ou responsabilizado. “Uma relação justa é aquela em que ninguém precisa diminuir o outro para existir”, enfatiza.
Agora, a advogada pretende levar essa visão para novos terrenos como candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro nas eleições de 2026. Mara entra na política depois de anos transformando experiências do escritório e das redes sociais em debate público.
Mas essa mudança de cenário não altera a pergunta que sempre atravessou a sua carreira jurídica: como garantir direitos sem transformar homens e mulheres em adversários permanentes?
Mara Damasceno tem a consciência que a resposta a esse questionamento continuará provocando reações. No entanto, a advogada parece já ter feito as pazes com a controvérsia. Afinal, foi justamente a decisão de não suavizar sua pauta que a trouxe até onde está hoje.
“Eu não defendo homens porque acredito que homens estejam sempre certos. Eu defendo homens porque acredito que ninguém deve ser injustamente acusado simplesmente porque nasceu homem”, conclui.