Eu confesso que meu coração de perua pop aperta. Quase 30 anos depois do acidente aéreo na Serra da Cantareira, os corpos dos cinco integrantes dos Mamonas Assassinas serão exumados. A decisão partiu das famílias, em acordo, com um plano simbólico e delicado, a cremação dos restos mortais e a transformação das cinzas em adubo para o plantio de cinco árvores no BioParque Cemitério de Guarulhos, a cidade onde eles viviam.
A notícia que foi veiculada pelo querido e lendário Ancelmo Góis é dessas que fazem o Brasil parar e respirar fundo. Não tem fofoca vazia aqui. Tem memória, luto que nunca some e um carinho coletivo que atravessa décadas. A ideia do memorial vivo troca o mármore frio por raízes crescendo. É despedida com gesto de continuidade.
Volto no tempo sem pedir licença. Era sábado, 2 de março de 1996. Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Júlio Rasec e Sérgio Reoli voltavam de um show em Brasília, a bordo de um Learjet 25D fretado pela banda. Às 23h15, a aeronave se chocou na Serra da Cantareira, ao norte de São Paulo. Além dos cinco músicos, morreram o piloto Jorge Luiz Germano Martins, o copiloto Alberto Takeda, o ajudante de palco Isaac Souto e o segurança Sérgio Porto.
Os Mamonas estavam no auge. O rock cômico, debochado, visual escrachado e letras que viraram trilha sonora de uma geração tinham conquistado o país. O único disco, lançado em junho de 1995, vendeu 1,8 milhão de cópias em oito meses. No total, chegou a 3 milhões e virou um dos maiores sucessos da música brasileira. Eles rodavam o Brasil e se preparavam para novos passos. A agenda era lotada, o público jovem, a energia inesgotável.
O último show no Brasil aconteceu no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Cerca de 4 mil pessoas, muitas crianças e adolescentes, cantaram e riram até perder o fôlego. Dinho apareceu com fantasia de coelhinho de pelúcia, dançou, brincou, fez o que sempre fez. A plateia saiu leve. O país acordou pesado no dia seguinte.
Essa exumação não é reabertura de ferida. É um capítulo de cuidado. As famílias optaram por um ritual que troca o peso do passado por algo que cresce. Cinco árvores, cinco vidas, um lugar para lembrar sem dor teatral. Eu acho bonito. Silencioso no melhor sentido, mesmo sem usar essa palavra que anda gasta.
Os Mamonas continuam vivos no imaginário coletivo. Em cada replay, em cada criança que descobre a banda anos depois, em cada adulto que ainda sabe as letras de cor. Agora, também estarão vivos na paisagem. Raízes no chão de Guarulhos, memória firme, risada que nunca morre.