Estou na Gávea, no meio de uma reunião, com esse Rio nublado e a chuva caindo, e precisei pedir licença e sair para o jardim para escutar Maitê Proença. Porque quando Maitê começa a passar a televisão brasileira a limpo, a reunião espera cinco minutinhos.
Em entrevista a Valmir Moratelli, da Veja, ela foi convidada a reagir a nomes que atravessaram sua trajetória. Chamou Gracindo Júnior de “gentleman”, rasgou elogios a Boni, falou com carinho de Lúcia Veríssimo e revelou que Betty Faria não gostava dela no começo. “Acho que ela achava que eu era uma porcaria”, contou. Depois, as duas viraram grandes amigas.

Aí veio Regina Duarte. E eu fiquei parada no jardim. Maitê contou que chegou a defender a atriz quando Regina passou a receber críticas por sua guinada à direita. “É a Regina, com quem a gente trabalhou a vida inteira”, dizia Maitê. Para ela, pensar diferente politicamente não apagava uma relação construída durante anos.
Mas o depoimento ficou mais forte quando Maitê falou da passagem de Regina pela Secretaria Especial da Cultura. Segundo ela, a atriz “não estava mais enxergando” e parecia estar com “um véu na frente dela”. Maitê afirmou ainda que tentou conversar com Regina sobre aquele momento, mas “ela não se interessou”.
Mesmo depois disso, Maitê fez questão de deixar uma coisa muito clara: “Eu não desgosto da Regina, eu gosto dela, apesar da gente pensar de forma diferente”.

Voltei para a reunião na Gávea pensando justamente nisso. Num tempo em que todo mundo quer transformar divergência em guerra, Maitê conseguiu contar uma mágoa sem apagar uma história.