Eu estava em Milão, tentando tomar um café no Brera sem ser atropelada por notícia, quando uma amiga me liga com a voz já meio trincada. “Kátia, vê isso agora.” Fui ver e dei de cara com Karina Lucco raspando o cabelo diante da câmera, sem filtro de coragem cenográfica e sem aquele teatrinho motivacional que a internet adora empurrar goela abaixo. O impacto está justamente aí, ela mostra o processo como ele é, duro, íntimo e impossível de reduzir a vaidade.

Karina, mãe de Lucas Lucco, revelou recentemente o diagnóstico de alopecia areata, condição autoimune que provoca queda repentina dos fios e pode abalar profundamente a autoestima. O vídeo mobilizou seguidores porque expõe uma vivência que muita mulher enfrenta cercada de medo, constrangimento e palpite alheio. E isso sempre me impressiona, como aparece especialista em tudo na internet, menos em calar a boca diante da dor dos outros.
Desta vez, a história veio acompanhada de fonte de verdade. A dra. Fernanda Nichelle, médica especialista em estética, explicou que a alopecia areata é uma doença autoimune em que o próprio organismo passa a atacar os folículos capilares, podendo causar queda em áreas específicas ou de forma mais extensa. Ela também chamou atenção para o peso emocional do quadro e para a necessidade de acolhimento, deixando claro que o problema não se resume ao cabelo, existe um impacto psicológico significativo que precisa ser levado a sério.
A médica ainda detalhou que há diferentes formas de alopecia feminina, com causas e características distintas. Segundo Fernanda Nichelle, a androgenética é a forma mais comum e está ligada a fatores genéticos e hormonais, a alopecia de tração costuma surgir pela tensão repetitiva de penteados muito apertados, a areata aparece em falhas circulares por resposta autoimune, e o eflúvio telógeno pode ocorrer após alterações hormonais, pós-parto, amamentação, dietas muito restritivas ou períodos de estresse. Tô conferindo o feed entre uma loja e outra na Via Montenapoleone e pensando como o público adora tratar tudo como se fosse uma coisa só, como se todo couro cabeludo viesse com a mesma história e o mesmo diagnóstico de prateleira.
Fernanda Nichelle também reforçou que existem caminhos possíveis de controle e tratamento, com terapias para estimular o crescimento dos fios e estabilizar o quadro, desde que haja avaliação precoce e plano individualizado. E talvez seja aí que essa história fique ainda maior do que o vídeo, porque Karina não só abriu a própria dor como ajudou a empurrar o assunto para um lugar menos ignorante. Em Milão, eu sigo com uma certeza antiga, mulher sofre, expõe, explica, traz médica, traz diagnóstico, traz contexto, e ainda assim aparece um gênio para chamar de frescura. O problema nunca foi falta de informação, foi excesso de estupidez mesmo.