Eu tava em casa, espremida no sofá com as amigas, taça na mão, todo mundo de olho na televisão esperando a abertura da Copa do Mundo, quando o assunto da roda escorregou pro que rolava em todas as colunas do dia: a última radioterapia do Lula. Abaixei o volume na hora. Porque, convenhamos, presidente fechando tratamento de câncer no mesmo dia em que o mundo inteiro liga a televisão pra abertura da Copa é o tipo de coincidência que só a vida real escreve.
Vamos aos fatos, que é o que interessa. Lá em abril, em São Paulo, ele retirou na cirurgia um carcinoma basocelular do couro cabeludo. Em seguida veio a parte preventiva: radioterapia no Hospital Sírio-Libanês de Brasília, quinze sessões distribuídas por três semanas, de uns dois minutos cada. E o detalhe que me deixou de queixo caído foi ele ter atravessado tudo isso despachando normalmente, agenda cheia, sem internação e sem soltar o batom.
Pra quem não é da área e ficou aflito, respira. O carcinoma basocelular é o câncer de pele mais comum que existe, costuma crescer devagar, raramente se espalha e tem índice altíssimo de cura quando pego cedo. A radioterapia complementar entra justamente nesses casos em que a localização complica uma retirada mais larga, como no couro cabeludo, pra garantir que nada fique pra trás. Tratamento de zelo, não de desespero.
Agora a parte que eu acho deliciosa de observar de longe. Enquanto o homem fechava o ciclo médico em Brasília, o calendário dele virava abertura de Copa do Mundo na agenda. A vida não pede licença pra continuar, e ali estava a prova: tratamento encerrado de um lado, bola rolando do outro, e o sujeito atravessando os dois capítulos no mesmo fôlego.
Encerrado o ciclo, e que ele siga firme nessa toada de quem trata a saúde com seriedade sem fazer disso espetáculo. Eu, daqui do sofá com as meninas, fico só na torcida discreta, do jeitinho que as colunistas que gostam de gente sabem fazer.