A possibilidade de Lula endurecer as regras ou até banir as casas de apostas do mercado brasileiro acendeu o alerta em Globo, Band, ESPN, TNT Sports e CazéTV. Segundo a coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo, as emissoras temem uma queda brusca de receita publicitária e já discutem internamente o risco de cortes no setor esportivo.
Depois de me despedir das amigas do lado de fora do restaurante, eu parei para ler essa história com calma antes de sair. Porque, minha gente, bet virou parte do cenário esportivo brasileiro: está na camisa, no intervalo, na placa do estádio, no nome do programa e, agora, no orçamento das grandes emissoras. Tirar essa torneira de uma vez faria um estrago daqueles.

Levantamento da Tunad citado pela coluna aponta que 55% das transmissões esportivas brasileiras na televisão têm publicidade de casas de apostas. O investimento estimado chegou a R$ 400 milhões em 2025. Não é troco de café, meu amor. É dinheiro que paga transmissão, patrocínio, estrutura e contratos.
Nos bastidores, departamentos comerciais das empresas já avaliam contratos fechados com bets e as consequências de eventuais rescisões. Há discussões sobre multas, substituição de patrocinadores e o tamanho do buraco que ficaria caso a publicidade do setor desapareça de repente.
A Band é uma das emissoras mais expostas. A casa vendeu naming rights de programas esportivos para empresas de apostas, ou seja, a marca da bet já está colada ao produto. Eu ali, esperando o carro e vendo o trânsito andar, só pensava: como é que troca o nome de um programa, troca o patrocinador e finge que nada aconteceu? Não é uma vinheta que se apaga em cinco minutos.

A Globo também tem cota exclusiva para casa de apostas nas transmissões de Copa do Brasil e Brasileirão, além de negociar pacotes do próximo ano com empresas do ramo. ESPN, TNT Sports e CazéTV igualmente dependem da fatia publicitária que as bets passaram a ocupar no mercado esportivo.
O medo maior, segundo executivos ouvidos pela coluna, é que uma perda considerável de receita acabe em demissões. E há outro problema: alguns profissionais das transmissões têm contratos pessoais de publicidade com casas de apostas para reforçar o salário nas redes sociais. Se a porta fechar, a pancada não fica só na empresa.
Lula vem defendendo restrições ao jogo e afirmou, em entrevista recente, ter “disposição pessoal” para acabar com as apostas. “As pessoas estão vendendo o que não têm, se endividando”, disse o presidente, comparando o vício em bets aos efeitos devastadores do crack em famílias.
A discussão é legítima, porque o endividamento e a compulsão por apostas existem e precisam de resposta séria. Mas uma coisa é enfrentar o problema; outra é descobrir, depois de anos deixando o setor dominar a publicidade esportiva, que metade do mercado ficou dependente dele. Eu entrei no carro pensando que esse jogo ainda vai deixar muita gente sem saber para onde correr.