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Kátia Flávia
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Lúcio Mauro Filho revela câncer mantido em segredo: “Ninguém sabe”

Ator contou que descobriu tumor colorretal durante um check-up após a covid e que doença está em remissão; oncologista esclarece 8 mitos e verdades

Kátia Flávia

14/08/2026 11h15

Lúcio Mauro Filho revelou que descobriu um câncer colorretal durante a pandemia e manteve o diagnóstico em segredo.

Lúcio Mauro Filho revelou que descobriu um câncer colorretal durante a pandemia e manteve o diagnóstico em segredo.

Eu estava tomando meu café da manhã em casa e tentando colocar a sexta-feira nos trilhos quando recebi um trecho da entrevista de Lúcio Mauro Filho no podcast “Alt Tabet”. Dei play esperando alguma história de televisão, bastidor de família ou carreira. Veio uma revelação que me fez esquecer a xícara na mesa: aos 52 anos, o ator contou pela primeira vez que enfrentou um câncer colorretal descoberto no fim de 2020, em plena pandemia, e que praticamente ninguém sabia.

“Eu tive uma covid que foi meio pesadinha e, por causa dela, eu tive um pânico. Quando terminou esse tratamento pós-covid, tinha que fazer um check-up pra ver se tudo melhorou. Quando eu faço esse check-up, cara, aí descobri um câncer no intestino. Eu nunca contei isso pra ninguém. Ninguém sabe”.

A revelação surpreende principalmente porque Lúcio Mauro Filho atravessou os últimos anos sem tornar público o diagnóstico. Na entrevista, ele contou ainda que atualmente a doença está em remissão. “Tudo foi feito”.

E foi justamente o jeito como o câncer apareceu na vida dele que me deixou com uma pergunta na cabeça. Se Lúcio chegou ao diagnóstico durante um check-up feito por outro motivo, quantas pessoas podem conviver com a doença sem perceber?

Fui atrás de quem entende do assunto.

Um câncer que pode crescer silenciosamente

O câncer colorretal se desenvolve no intestino grosso, também chamado de cólon, ou no reto, e sua incidência aumenta a partir dos 50 anos. O principal tipo é o adenocarcinoma e, em cerca de 90% dos casos, tem origem em pólipos que podem sofrer alterações ao longo dos anos e se tornar malignos.

Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 53.810 novos casos da doença por ano no triênio 2026-2028.

O oncologista Artur Ferreira, da Oncoclínicas, explica quais mudanças merecem atenção.

“Apesar de a doença muitas vezes ser silenciosa, o paciente deve observar se há alterações do hábito intestinal, tais como constipação, diarréia, afilamento das fezes, ausência da sensação de alívio após a evacuação (como se nem todo conteúdo fecal fosse eliminado), massas palpáveis no abdome, sangue nas fezes, dores abdominais, perda de peso sem motivo aparente, fraqueza e sensação de fadiga”, explica Artur Ferreira, oncologista da Oncoclínicas.

Entre os fatores de risco estão dietas ricas em ultraprocessados e pobres em vegetais, consumo elevado de carnes vermelhas, sobrepeso e obesidade, sedentarismo, tabagismo e doenças inflamatórias intestinais, como a retocolite ulcerativa. Fatores hereditários também podem influenciar.

E tem um ponto importante nessa história toda: quando indicado, o rastreamento pode encontrar alterações antes mesmo de o câncer se desenvolver.

“Diferentemente do câncer de mama, por exemplo, onde a doença é identificada com os exames de rotina geralmente em fase inicial, já instalado, o tumor colorretal pode ser descoberto em sua fase pré-cancerosa com a colonoscopia.

Uma vez diagnosticado, a equipe multidisciplinar irá avaliar cada caso individualmente, selecionando as estratégias e opções mais adequadas a cada paciente”, comenta o oncologista da Oncoclínicas.

O tratamento depende de cada caso e pode envolver procedimentos locais, como cirurgia, radioterapia, embolização e ablação, ou tratamentos sistêmicos, como quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo.

E como a revelação de Lúcio Mauro Filho colocou o assunto na mesa, aproveitei para separar com o especialista algumas das dúvidas que ainda cercam esse tipo de câncer.

8 mitos e verdades sobre o câncer colorretal

1. Todas as pessoas que têm câncer colorretal precisam usar bolsa de colostomia

MITO. A colostomia é utilizada apenas em determinados casos, como algumas obstruções ou perfurações intestinais, cirurgias de emergência e tumores localizados no canal anal ou na parte mais baixa do reto.

Com a evolução das técnicas cirúrgicas e dos cuidados aos pacientes, a necessidade do procedimento diminuiu. Quando indicada, a colostomia pode ser temporária ou definitiva, dependendo das características da doença e do tratamento.

2. Quem tem intestino preso tem mais risco de desenvolver câncer colorretal

DEPENDE. Existem hipóteses relacionando períodos prolongados de trânsito intestinal à maior exposição da parede do intestino a substâncias carcinógenas presentes nas fezes. Alterações da flora intestinal também vêm sendo estudadas.

No entanto, a constipação não é considerada um fator clássico de risco. Idade, obesidade, sedentarismo, dietas ricas em carne vermelha e pobres em vegetais e fibras, diabetes e tabagismo têm maior relevância.

3. Homens estão mais propensos a ter câncer colorretal

VERDADE. A diferença não é grande o suficiente para justificar recomendações diferentes de rastreamento entre homens e mulheres, mas existe maior incidência entre indivíduos do sexo masculino em dados globais.

4. Se um pólipo for detectado, é certeza de que o câncer aparecerá

MITO. Embora grande parte dos tumores colorretais tenha origem na transformação de pólipos intestinais, apenas uma parcela deles evolui para câncer. Quando encontrados durante uma colonoscopia, os pólipos podem ser removidos e encaminhados para análise.

5. Comer carne vermelha e processada em excesso pode aumentar o risco

VERDADE. O consumo elevado desses alimentos está associado ao maior risco de câncer colorretal. A orientação é evitar excessos e manter uma alimentação diversificada, com boas fontes de fibras e outros tipos de proteína.

6. O câncer colorretal sempre apresenta sintomas

MITO. E talvez esse seja o ponto que mais converse com a história revelada por Lúcio Mauro Filho. Nas fases iniciais, o câncer pode não causar sintomas. Quando aparecem, alguns sinais ainda podem ser confundidos com problemas passageiros, daí a importância de acompanhamento médico e rastreamento quando indicado.

7. Doenças inflamatórias intestinais podem aumentar o risco

VERDADE. Algumas doenças inflamatórias intestinais estão associadas ao desenvolvimento de tumores colorretais. Em casos de retocolite grave e extensa, por exemplo, o risco pode ser significativamente superior ao da população geral.

8. É sempre possível prevenir o câncer colorretal

MITO. Há hábitos capazes de reduzir o risco, mas não existe garantia absoluta de prevenção.

“Deve-se investir em uma dieta rica em fibras e uma menor ingesta de carnes vermelhas e processadas, praticar atividades físicas, evitar bebidas alcoólicas e tabagismo e, manter ativo fisicamente e com peso adequado. Além disso, é importante investigar se o paciente possui doenças inflamatórias intestinais crônicas, como a doença de Crohn ou colite ulcerativa e, se presentes tratá-las. A observação de todos esses pontos certamente reduz em muito o risco, porém não o elimina por completo “, finaliza Artur Ferreira.

Voltei para aquele café que já estava frio pensando justamente no acaso que levou Lúcio Mauro Filho a fazer o check-up depois da covid. A revelação ficou guardada por anos, mas agora que ele resolveu contar, acabou trazendo para a conversa uma doença que muitas vezes prefere justamente o silêncio. E, nesse caso, informação e acompanhamento médico podem fazer toda a diferença.

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