Léo Stronda aparece aplicando uma injeção em Gabriel Ganley em um vídeo exibido pelo Fantástico neste domingo (31), dentro de uma reportagem sobre a banalização dos anabolizantes nas redes sociais. As imagens mostram o fisiculturista, morto aos 22 anos, recebendo a aplicação diante das câmeras pouco tempo depois de anunciar que havia deixado de competir como atleta natural para aderir ao uso de hormônios.
Eu estava indo para a Barra da Tijuca, com reunião marcada no Shopping Hills e a cabeça parecendo uma aba de navegador com 47 janelas abertas, tentando falar com Léo Stronda, tentando falar com Renato Cariani, tentando entender como essa história virou entretenimento de internet, quando caiu o trecho do Fantástico. Eu vi a cena e fiquei quieta por alguns segundos, coisa rara nesta coluna. Porque uma coisa é falar sobre anabolizante. Outra é transformar aplicação em conteúdo, com câmera, frase de efeito e simbolismo de iniciação.

No vídeo, gravado para um programa online apresentado por Stronda, o influenciador chama Gabriel para ter uma “segunda primeira vez” e, em seguida, aplica a injeção no braço do jovem. A reportagem descreveu a cena como uma espécie de “batismo no mundo da bomba”. Depois, Stronda assina a seringa e entrega o objeto a Gabriel como se fosse um troféu de entrada naquele universo.
Esse é o ponto central da história. Não é só a desculpa posterior, não é só o arrependimento publicado depois da repercussão, não é só o debate abstrato sobre academia, shape e performance. O que chamou atenção foi a imagem de um influenciador aplicando uma substância em outro diante das câmeras, convertendo um ato ligado a riscos de saúde em cena de programa, em rito, em espetáculo para uma audiência jovem e obcecada por resultado rápido.
Gabriel Ganley ficou conhecido como “Bebezinho Natural” justamente por defender uma rotina de treinos sem hormônios. A mudança de discurso surpreendeu seguidores quando ele anunciou que passaria a usar substâncias para acelerar os ganhos musculares. A partir dali, passou a comentar publicamente os produtos utilizados, os resultados e os impactos da nova rotina.
Gabriel chegou a afirmar que não pagava pelos produtos que usava, porque havia conseguido patrocínio e podia solicitar as substâncias que quisesse. O caso expôs um mercado em que corpo, audiência, influência e promessa de transformação aparecem misturados de um jeito perigoso demais para ser tratado como piada de maromba.
Depois da repercussão da morte de Gabriel, Stronda publicou um vídeo dizendo estar arrependido e afirmou que não pretende mais falar sobre anabolizantes. “Nos últimos dias, em luto pelo Gabriel, também pedi a Deus perdão pelos erros que cometi. Vocês não vão me ouvir mais falando sobre esse assunto”, declarou.
As desculpas existem e foram registradas. Mas elas vêm depois da imagem que ficou: a aplicação, a seringa assinada, o tom de celebração e a ideia de que cruzar aquela linha fazia parte de uma narrativa de evolução. A internet gosta de chamar tudo de conteúdo, mas nem tudo deveria caber nesse nome.

No caminho para a Barra, eu seguia tentando retorno de Stronda e Cariani, mas a sensação era de que a pauta já tinha respondido muita coisa sozinha. Quando a aplicação vira quadro, quando a seringa vira souvenir e quando o risco vira estética de canal, o problema deixou de ser bastidor de academia faz tempo. Virou cultura de performance com plateia, monetização e menino de 22 anos no centro de uma tragédia que ninguém mais pode tratar como meme.