Eu, Kátia Flávia, já vi muito ego inflável por aí, mas isso aqui foi consagração com confete oficial. Léo da Bodega acordou personagem principal do Carnaval e foi dormir lenda local. O rapaz virou Boneco de Olinda, daqueles gigantes que passam e todo mundo aponta, grita e jura que conhece desde pequeno. Conhece mesmo, porque ele nasceu e cresceu na Rua do Amparo, aquele endereço que respira folia o ano inteiro em Olinda.
O boneco estreou descendo ladeira com fome de medalha e saiu vencedor da famosa Corrida dos Bonecos. Chuva caiu, frevo correu solto e o povo vibrou como final de reality com votação aberta. Quem deu pernas ao gigante foi Wallison Bruno Costa, restaurador de arte sacra, veterano da disputa e herdeiro de um sobrenome campeão. O ouro veio na categoria Pesado, com abraço emocionado, legado de família em dia e aquela frase confiante que só quem conhece o chão de pedra pode soltar sem tremer.

Eu chamei esse capítulo de Boneco Campeão, porque não ficou só no troféu. A vitória virou cenário de clipe. “Bloco Campeão”, novo single previsto para fevereiro, foi gravado ali mesmo, suor real, ladeira real, câmera colada no corpo. A música mistura frevo com drill de Londres, combinação ousada que parece improvável na teoria e funciona lindamente na prática. A vida também é assim, minha gente.
O clipe ganhou olhar documental sob as lentes de Hugo Muniz e ainda trouxe a Tropa dos Gorillas, grupo de corrida urbana do Recife, juntando esporte, rua e Carnaval numa estética que dá vontade de calçar o tênis e sair correndo atrás do boneco. Tudo muito lifestyle, muito street, com alma antiga batendo forte.

Essa história começou antes, claro. Em dezembro, Léo lançou o EP “A Folia Começa no Amparo”, gravado com a Orquestra do Avesso, deixando de lado o trap eletrônico para registrar o som cru das ladeiras. Foi ali que ele avisou, sem dizer, que estava pronto para virar memória viva. O boneco veio, a corrida confirmou e o Carnaval anotou no caderninho.
Eu fecho com a imagem que fica. Um menino da Rua do Amparo agora gigante, descendo ladeira, vencendo corrida e cantando a própria história com câmera ligada. Se isso não é roteiro de novela das nove, eu devolvo meu crachá imaginário.