Eu estava almoçando com umas amigas em Santa Teresa neste domingo quando meu celular apitou com uma nota que merecia interromper a conversa. Era a manifestação da defesa de Karina Gama, da Go Up, sobre a decisão do ministro Flávio Dino de levantar o sigilo dos elementos de uma investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo. Parei de comer e fui ler inteira. Porque aqui não cabe telefone sem fio.
A defesa de Karina diz receber a decisão “com absoluto respeito” e considera positiva a abertura dos elementos da investigação, que, segundo a própria nota, envolve o Instituto Conhecer Brasil e um contrato celebrado com a Prefeitura de São Paulo. O advogado Ricardo Sayeg sustenta que a transparência interessa também à investigada e afirma que ela já apresentou voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentos.
E esse número me pegou. Vinte mil páginas não são um detalhe de rodapé. A defesa usa justamente esse volume para sustentar sua posição: “Quem já apresentou voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação não teme transparência.”
Karina, ainda de acordo com a manifestação de seu advogado, nega ter praticado qualquer ilícito. A defesa também faz questão de separar as coisas: argumenta que investigação não significa acusação nem condenação e afirma que a repercussão política do caso não pode substituir o devido processo legal.
A nota vai além e diz não ter nada a opor ao levantamento do sigilo. Pelo contrário: a defesa afirma querer que documentos, contratos, pagamentos e demais circunstâncias sejam examinados de maneira técnica, dentro da legalidade e sem interferência de disputas políticas.
Voltei para a mesa com uma certeza jornalística, não jurídica: com o sigilo levantado, a história entra em outra fase. Agora haverá documentos para serem confrontados com versões e alegações. E aí, meus amores, opinião perde espaço. Documento é documento.
Veja a nota completa:
NOTA DE ESCLARECIMENTO
(13/09/26)
A defesa da Sra. Karina Gama recebe com absoluto respeito e considera positiva a decisão do Ministro Flávio Dino de levantar o sigilo sobre os elementos da investigação conduzida pela Polícia Civil do Estado de São Paulo envolvendo o Instituto Conhecer Brasil e contrato celebrado com a Prefeitura de São Paulo.
A transparência interessa à Justiça, à sociedade e, sobretudo, à própria defesa.
Quem já apresentou voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação não teme transparência.
Desde o primeiro momento, a Sra. Karina Gama tem sustentado, de maneira firme e inequívoca, que não praticou qualquer ilícito.
A publicidade dos elementos da investigação permitirá que os fatos sejam conhecidos em sua integralidade e examinados objetivamente, para além de especulações ou juízos antecipados.
A defesa confia que a plena exposição dos fatos demonstrará que a Sra. Karina Gama não pode ser transformada em culpada pela intensa efervescência da vida nacional, em um momento de extraordinária agitação e movimentação política.
Investigar é legítimo. Esclarecer é do interesse de todos. Mas investigação não é acusação, muito menos, condenação e a repercussão política jamais poderá substituir o devido processo legal.
Por essa razão, a defesa nada tem a opor quanto à transparência e ao levantamento do sigilo.
Ao contrário, deseja que o Brasil tenha acesso à realidade integral dos acontecimentos e que cada documento, contrato, pagamento e circunstância seja examinado tecnicamente, dentro da legalidade e sem contaminação por disputas políticas ou narrativas previamente construídas.
A Sra. Karina Gama continuará colaborando com as autoridades competentes e exercendo, com serenidade, seu direito constitucional de defesa, convicta de que a verdade dos fatos prevalecerá.
A Constituição protege a investigação, mas também protege o investigado. E é justamente nos casos de maior repercussão pública que essa garantia precisa ser mais rigorosamente observada.
Ricardo Sayeg
OABSP 108.332