Juliette usou as redes sociais para fazer um desabafo sobre feminicídio, misoginia e cultura redpill. A cantora contou que acompanhava o início do Tribunal do Júri do caso de Clarissa, amiga de infância dela e vítima de feminicídio no ano passado, e aproveitou o momento para cobrar ações concretas contra o ódio às mulheres.
Eu já estava na academia, fingindo intimidade com um aparelho que claramente me odeia, quando abri os stories da Juliette entre uma série e outra. Parei com a perna tremendo e o elástico de resistência quase me levando para o chão, porque ela não estava fazendo post de efeito. Estava falando com dor, com raiva e com uma clareza que atravessa o barulho de qualquer esteira.

“Hoje eu acordei com o coração apertado. Tá acontecendo agora o Tribunal do Júri do caso da minha amiga Clarissa, que foi vítima de feminicídio no ano passado”, disse Juliette. Ela afirmou acreditar na Justiça e declarou que nada ameniza a dor da perda, mas que a responsabilização precisa acontecer.
A partir do caso da amiga, Juliette ampliou a discussão. Para ela, a luta contra o feminicídio não é de partido nem de ideologia, mas de toda a sociedade. “O feminicídio não começa na agressão, ele começa na palavra, começa numa cultura, quando alguns comportamentos passam a ser normalizados”, afirmou.
Minha filha, isso é exatamente o ponto. Antes do crime extremo, costuma vir a piada, o xingamento, o controle, a humilhação, o “mulher merece”, o “ela provocou”, o “redpill só está falando verdades”. A violência não nasce adulta. Ela vai sendo alimentada no comentário, no grupo fechado, no vídeo viral, no homem que acha que odiar mulher é opinião.
Juliette defendeu que a legislação também tem papel na mudança cultural. Ela citou exemplos como leis sobre álcool ao volante e proibição de cigarro em ambientes fechados para argumentar que normas ajudam a estabelecer limites sociais. “A gente precisa de leis que mudem a cultura e que punam comportamentos misóginos”, declarou.
A cantora também cobrou a votação do projeto de lei que prevê a criminalização da misoginia. Segundo ela, a proposta já passou pelo Senado, mas segue parada na Câmara dos Deputados. Juliette criticou o argumento de que o tema seria polêmico ou poderia ferir a liberdade de expressão. “Ódio às mulheres é diferente de liberdade de expressão”, disse.
Eu, suando no colchonete e com zero dignidade postural, assinei embaixo mentalmente. Porque liberdade de expressão não é salvo-conduto para transformar mulher em alvo. Se a pessoa precisa odiar mulher para se sentir livre, o problema não está na lei. Está no porão moral onde essa criatura mora.
Juliette ainda alertou que esta é a última semana antes do recesso parlamentar e pediu que a proposta seja analisada. “Eu queria tanto que os discursos se tornassem ações, que pensassem muito mais na proteção das mulheres e menos em interesses secundários”, afirmou.

O recado dela é simples e pesado: feminicídio não começa no último ato. Começa antes, quando o ódio é normalizado, quando a misoginia vira conteúdo, quando a cultura redpill ganha verniz de debate e quando homens se sentem autorizados a atacar mulheres como se isso fosse opinião política.
Eu terminei a série sem saber se tremia pelo exercício ou pela raiva. Juliette falou como advogada, como artista e como amiga de uma mulher assassinada. E quando alguém fala desse lugar, o mínimo que o país deveria fazer era parar de discutir desculpa e começar a votar proteção.