Socorro Meu povo! estava aqui pronta para uma nota política comportada, daquelas que entram, cumprem tabela e vão embora, quando o governador Jorginho Mello resolveu transformar a pauta em episódio especial de baixaria institucional com sotaque catarinense. O governador de Santa Catarina partiu para cima do ministro dos Transportes, Renan Filho, e chamou o homem de “Picareta Júnior” ao comentar o impasse sobre os túneis do Morro dos Cavalos. Eu tive que sentar para processar, porque uma coisa é crítica de gestor, outra é apelido de guerra lançado em voz alta, com cara de quem queria que o vídeo circulasse no café, no zap e no almoço de família. E circulou, meu amor. Quando o governador decide abandonar o freio e acelerar no deboche, a pauta deixa de ser só obra e vira duelo.
Na fala, Jorginho diz que o ministro esteve em Santa Catarina meses atrás, montou palanque, falou mal dele e prometeu solução que não saiu do papel. Aí veio o trecho que faz o celular esquentar de tanta repercussão. O governador afirmou que “não vai ter túnel” porque eles seriam “incompetentes”, acusou o governo federal de passar “de estado em estado enganando as pessoas” e disse que já havia oferecido uma proposta mais barata para executar a obra. E eu vou te falar uma coisa, meus fofoqueiros de elite, isso não é fala espontânea de quem tropeçou no microfone. Isso é discurso desenhado para carimbar um culpado e posar de cara que tentou resolver tudo sozinho, mas foi barrado pelo clubinho de Brasília. Política adora esse papel, né? Sempre existe o salvador com projeto na mão e o vilão burocrático atrapalhando a cena. Nem roteirista de série ruim resiste a uma estrutura dessas, imagina governador em ano quente.
O detalhe delicioso, no pior sentido possível, é que o apelido “Picareta Júnior” bate justamente em Renan Filho,( que é um gato!) porque o sobrenome político do ministro já vem com esse “Filho” embutido que facilita a gracinha agressiva. E é aí que a fala deixa de ser só ataque duro e vira provocação pensada para colar. Renan Filho aparece em agendas oficiais recentes do Ministério dos Transportes como chefe da pasta e segue à frente de anúncios e investimentos rodoviários pelo país, o que dá peso nacional à pancada disparada por Jorginho.  Eu precisei pausar a esteira da minha paciência porque, convenhamos, o governador não estava apenas reclamando da lentidão de uma obra. Ele estava montando uma cena política com alvo definido, nome completo por trás da bronca e linguagem de arquibancada para ninguém fingir que não entendeu. Quando a autoridade pública troca a planilha pelo apelido, meu bem, a discussão técnica vai embora de fininho pela porta dos fundos.
E tem contexto, claro, porque o Morro dos Cavalos não é assunto inventado do nada para fazer barulho de ocasião. É tema antigo, sensível, ligado à mobilidade e à infraestrutura de Santa Catarina, e sempre volta ao noticiário quando a sensação de atraso e promessa não cumprida explode. Jorginho usa esse incômodo real para engrossar o discurso e se vender como quem viu tudo antes, avisou antes e agora só estaria confirmando o desastre. É uma estratégia política até óbvia, mas que funciona quando encontra população cansada de anúncio, visita oficial e solução que nunca chega. O problema é que, no meio disso, a conversa institucional vai para o espaço e entra em cena o espetáculo do embate. Se tem famoso surtando, tem Kátia anotando. Se tem governador surtando contra ministro com apelido de combate, eu anoto duas vezes e ainda sublinho.
No fim, o que era para ser cobrança por infraestrutura virou peça de confronto com nome, sobrenome e veneno. Jorginho não atacou um ministro genérico, atacou Renan Filho, titular dos Transportes, e fez isso com uma frase pensada para machucar, viralizar e render manchete.  Meu povo, guardem esse caso na pastinha da política que resolveu flertar com barraco de reality, porque é exatamente isso. A obra segue como problema concreto, mas a briga agora ganhou figurino de campanha, cara de palanque e trilha sonora de confusão anunciada. E eu aviso desde já, isso não para aqui. Quando governador chama ministro de “Picareta Júnior” em público, o asfalto sai de cena e o espetáculo entra dirigindo.