Eu estava deitada na maca, na Barra da Tijuca, no meio da drenagem, com a profissional trabalhando na minha perna e o celular apoiado do lado, quando o nome dele apareceu três vezes seguidas na tela. Pedi pra profissional segurar um segundo, me levantei um pouco de lado, porque aquilo ali não era fofoca leve de fim de manhã. João Signorelli morreu, e o detalhe que ninguém tinha me contado ainda me deu um arrepio até por cima da pressão do aparelho.
João morreu na madrugada de terça, dia 21, em São Paulo, aos 69 anos. Ele tinha sido internado na noite de segunda com um quadro de insuficiência renal, sofreu uma parada cardiorrespiratória durante a madrugada e não resistiu, no Hospital Sancta Maggiore. A confirmação veio da companheira dele, a atriz Thaia Perez, e também de uma prima do ator nas redes sociais. Recentemente ele já tinha passado por uma cirurgia de hérnia inguinal no Hospital das Clínicas, então o corpo já vinha dando sinal.

Aqui está o que me deixou de queixo caído, ainda de perna erguida em cima da maca. João deixou um trabalho pronto, ainda não lançado. Um filme chamado A Grande Viagem, com estreia prevista para outubro deste ano, baseado na obra psicografada por Chico Xavier, Mensagem do Pequeno Morto. Nele, João interpretava o próprio Chico Xavier, o médium mais conhecido do país, o homem que passou a vida dizendo que a morte não é o fim, que dá para conversar com quem já foi. João gravou isso, terminou, e morreu antes de ver o resultado na tela. Isso não é roteiro. É a vida imitando o papel de um jeito que ninguém consegue inventar de propósito.
E olha que essa não era a primeira vez que ele flertava com esse tipo de personagem maior que a vida. Em cinco décadas de carreira, desde a estreia em 1974 na novela Supermanoela, ele fez quase 30 novelas em cinco emissoras diferentes, Globo, Manchete, Band, Record e SBT. Foi o inesquecível Varetão em A Gata Comeu, em 1985, esteve em Caminho das Índias, em Salve Jorge, em O Dono do Mundo, na série Carandiru, Outras Histórias, e fechou a carreira em novelas como o Joaquim de Chiquititas, no SBT. No teatro, ele já tinha vivido Gandhi, Fernando Pessoa e o próprio Chico Xavier. Ou seja, o homem passou a carreira interpretando gente que via o mundo maior do que o resto de nós via.

Fora das câmeras, João era mineiro, nascido em Cambuquira, no Sul de Minas, e nos últimos meses estava mais perto da militância do que da vaidade de ator. Esteve em Belém, em novembro passado, durante a COP30, ao lado de Lucélia Santos, participando da celebração dos 25 anos da Carta da Terra, e tinha se engajado contra a instalação de lixões em municípios do Pará. Não era só ator de novela morrendo, era um homem que ainda estava usando a fama pra empurrar pauta boa.
Voltei pra maca, terminei a drenagem pensando na cena. Um ator que passou a vida fazendo personagens que enxergavam além, deixando pronto um filme sobre um homem que fala com os mortos, sem saber que ia virar, ele mesmo, a mensagem que chegou antes da hora.