Amor, eu estava aqui no Cosme Velho, pronta para faltar à academia com responsabilidade, quando o grupo das blogueiras arrependidas começou a apitar mais que tornozeleira eletrônica em feriado prolongado. A pauta do dia? A prisão de Deolane Bezerra, que já renderia por si só, mas ganhou tempero extra com a irmã, Daniele Bezerra, transformando penitenciária em parque temático do apocalipse. Entre um cafezinho e outro, me mandaram o link de reportagem oficial dizendo que a doutora está detida desde 21 de maio na Operação Vérnix, que mira lavagem de dinheiro ligada ao PCC, e ainda foi denunciada pelo Ministério Público de São Paulo por organização criminosa e lavagem de dinheiro. A própria se diz inocente e afirma que o dinheiro vindo da facção é cachê jurídico, não parceria comercial.
Daí entra Daniele, a roteirista de terror dessa temporada da família Bezerra. Em entrevista, ela disse que Deolane estaria vivendo em condições sub-humanas, com infestação de escorpiões na cela e crises de pânico, sem conseguir ficar sozinha à noite. Teve a frase que virou meme instantâneo: em um dia, a influenciadora teria matado quatro escorpiões, como se o presídio fosse uma mistura de A Fazenda com Discovery Channel versão peçonhentos. Para completar o combo, a irmã descreveu prato sujo de dejeto sendo reaproveitado na cozinha e água sem condição de consumo, cena digna de filme que você vê, se choca e depois descobre que era baseado em fatos “inspirados livremente”.

Só que aí, meu bem, entra a Polícia Penal do Estado de São Paulo (PPESP) com a prancheta na mão e o desmentido em fonte tamanho 72. A PPESP afirmou que a penitenciária passou por dedetização em abril, que o local faz desratização periódica e não tem registro de animal peçonhento circulando no xadrez da doutora. Também disseram que Deolane se alimenta e toma água normalmente, com líquido próprio para consumo e analisado com frequência. Funcionários da unidade, ouvidos pela reportagem, teriam reagido às acusações com risada, como quem escuta aquela amiga aumentando tanto a história que o drama perde o efeito e vira fanfic carcerária.
Enquanto isso, as redes fizeram o que sabem fazer: dividir torcida como se fosse paredão de reality jurídico. De um lado, fãs da advogada abraçaram a versão da irmã, subiram textão emocionado e trataram cada escorpião citado como se fosse prova de perseguição institucional. Do outro, uma turma mais cética viu inconsistência entre a fala de Daniele e a nota da Polícia Penal, levantando suspeita de que a narrativa dramática pode funcionar mais no tribunal da opinião pública do que no processo oficial. Páginas de fofoca surfaram no engajamento, repostando print, manchete de site e recorte de reportagem, e o nome de Deolane se manteve em alta como se ainda estivesse em reality show, só que agora com juiz de verdade na bancada.

Da varanda aqui do Cosme Velho, a impressão da tia Kátia é que a família está tentando equilibrar duas novelas ao mesmo tempo, a jurídica e a emocional, e a irmã escolheu o roteiro da dor amplificada para ver se a plateia compra ingresso dobrado. Quando a polícia vem a público, rebate ponto a ponto e ainda deixa escapar risada, o drama de escorpião começa a cheirar mais a exagero estratégico do que a relato cru da realidade. E se tem uma coisa que juiz não costuma curtir é figurante fazendo teste para protagonista em cima do processo dos outros, então talvez fosse hora de trocar o texto da cena e deixar a dramaturgia só para a próxima temporada de reality, não para o presídio de Tupi Paulista.