Eu já estava atrasada para a academia, de moletom por cima da roupa de treino e aquele copão d’água na mão que me faz acreditar que sou uma mulher absolutamente comprometida com a saúde, quando recebi essa notícia. E confesso: o tênis ficou no chão por alguns minutos.
A influenciadora chinesa GanFan Yingying morreu aos 24 anos após enfrentar uma série de complicações de saúde. Seu nome verdadeiro era Chen Ziyi, e a morte, ocorrida em 17 de agosto, foi confirmada pelos pais ao jornal chinês Global Times. A causa oficial não havia sido divulgada.

Yingying tinha mais de 1,2 milhão de seguidores e ficou conhecida pelos vídeos de mukbang, formato em que criadores consomem grandes quantidades de comida diante das câmeras enquanto conversam e interagem com quem está assistindo.
Mas o detalhe que me fez colocar o copão d’água imediatamente na bancada foi outro. Antes de morrer, ela contou que havia sido hospitalizada e que seu nível de potássio no sangue chegara a 2,3, enquanto a reportagem informa como referência uma faixa de 3,5 a 5,5.
Potássio não é detalhe de exame que a gente olha, faz cara de paisagem e fecha o aplicativo. Ele participa do funcionamento dos músculos e do coração. Níveis muito baixos podem estar associados a fraqueza muscular, paralisia e alterações perigosas do ritmo cardíaco.
E aqui existe uma diferença importantíssima: não foi estabelecido que comer grandes quantidades de comida tenha causado a morte de Yingying. A própria reportagem ressalta que o excesso de comida, isoladamente, não provoca necessariamente uma queda grave de potássio. Vômitos frequentes e uso de laxantes, por exemplo, podem provocar esse desequilíbrio.

O mais perturbador é que a própria influenciadora havia falado sobre o desgaste por trás desse tipo de conteúdo. Disse que criadores de mukbang enfrentavam pressão física para manter a produção dos vídeos e escreveu que a saúde deveria vir antes do dinheiro. Aos 24 anos.
Eu, que cinco minutos antes estava reclamando mentalmente porque precisava sair de casa para treinar, peguei meu copão, vesti direito o moletom e fiquei pensando na crueldade dessa engrenagem. A internet transformou até comer em espetáculo, audiência e obrigação profissional. Quando o corpo começa a cobrar a conta, nenhum milhão de seguidores consegue negociar com ele.