Estava saindo da academia no Leblon quando meu celular começou a vibrar com a mesma pergunta vinda de direções diferentes: você viu a entrevista do Igor Rickli no Gshow? Vi, ouvi e reli três vezes, porque essa história tem camadas que a imprensa convencional insiste em não descascar.
O ator passou onze anos na Record interpretando figuras bíblicas, incluindo o próprio Lúcifer, enquanto construía em casa, bem longe das câmeras, um casamento aberto, bissexual e ancorado na terapia tântrica com a ex-Rouge Aline Wirley. Agora voltou à Globo como Patrick, um professor de dança carismático que usa o corpo e a sensualidade como ferramentas de ascensão social, e a ironia é quase grande demais para caber numa tela de novela.

Igor sempre fez questão de dizer que entende o sexo pelo viés da saúde, não do erótico, que o casamento deles é sobre amor real, aquele que limpa ferida e cuida na dor. Mas o personagem que ele escolheu para seu grande retorno faz exatamente o oposto: seduz com intenção, manipula com charme e sobe na vida usando o próprio corpo como moeda de troca. Minha fonte me disse ontem à noite que essa contradição não escapou aos bastidores da Globo, e que foi justamente essa tensão entre o Igor real e o Patrick ficcional que fez a produção apostar nele.
O que a entrevista do Gshow também não contou é que Igor não foi chamado, foi buscar. Ele mesmo admitiu ter mandado mensagem para todo mundo ligado à novela implorando pelo papel, numa campanha que durou meses. O homem que prega desapego e amor sem posse fez o lobby mais apegado da TV brasileira para conquistar uma vaga que a Globo não ofereceu de bandeja. E deu certo.
Além de Patrick, ele leva para o set o filho Antônio Caramelo, de onze anos, que estreia na emissora, enquanto em casa aguardam Will e Fátima, os dois filhos mais novos que o casal adotou.

A novela se chama “Quem Ama Cuida”, e se há alguém no elenco cuja vida pessoal responde literalmente ao título, esse alguém é Igor Rickli. O que fica para mim, depois de tudo que pesquisei e ouvi, é que a ficção e o real nunca estiveram tão grudados num mesmo ator ao mesmo tempo, e que a Globo, conscientemente ou não, escalou um homem cuja própria existência já é um roteiro de novela das nove.